quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

ÍNDICE DE TEXTOS

56. ARTIGO: "Meu Vegetarianismo"
55. CRÔNICA: "Curtidas de Redes Sociais"
54. CRÔNICA: "O Fanatismo e o Café"
53. CRÔNICA: "O Dicionário do Centro do Mundo"
52. CRÔNICA: "Democracia de Tabuleiro"
51. CRÔNICA: "Você é a Favor ou Contra?"
50. CRÔNICA: "Rex"
49. CRÔNICA: "O Pêndulo"
48. CRÔNICA: "Jiu Jitsu vs. Boxe"
47. CRÔNICA: "O Jornalismo Científico Marrom"
46. ARTIGO: "Se Eu Fosse Legislador"
45. CRÔNICA: "Os Livros da Minha Vida"
44. POEMA: "Recursos Hídricos"
43. CRÔNICA: "Algumas Falácias Lógicas de Conversas de Bar Sobre Política"
42. LIT.: "Os Três Amigos e o Tempo"
41. ARTIGO: "CEO e CEO"
40. ARTIGO: "O Botão Curtir de 1 Centavo"
39. ARTIGO: "Ciência e Moral Terão Convergência Racional no Século XXI?"
38. CRÔNICA: "Argumentandum ad Hominem"
37. CRÔNICA: "A Arte da Elegância da Era Virtual"
36. CRÔNICA: "O que eu diria a mim mesmo muitos anos atrás?"
35. CRÔNICA: "Ufologia"
34. LIT.: "Autoretrato em Alterego"
33. LIT.: "Autoretrato"
32. CRÔNICA: "Sobre Leis e Salsichas"
31. NOTÍCIA FICTÍCIA: A PEC dos Precatórios
30. JURÍDICO"LIBENTER"
29. CRÔNICA: "Abre a Boca e Fecha os Olhos"
28. LIT.: "O Trono e o Recalcado" (Pecado Capital)
27. JURÍDICO: "SER E VIVER", Editora Santuário.
26. LIT.: "O Sofá"
25. MÚSICA: "QUANDO FOR" (3’52’’)
24. JURÍDICO: "III Concurso Nacional de Monografias da OAB/2005"
23. LIT.: "O Círculo Menor"
22. LIT.: "O Neto da Puta" (Pecado Capital)
21. LIT.: "Aranóia"
20. POEMA: "Negro"
19. POEMA: "José e o Amuleto"
18. POEMA: "Verde Pátria Minha"
17. LIT.: "A Teoria da Bolha" (Pecado Capital)
16. POEMA: "Ágape"
15. POEMA: "Água"
14. LIT.: "Quatro-e-nove" (Pecado Capital)
13. CRÔNICA: "Meu Pai"
12. LIT.: "Contraponto"
11. LIT.: "O Pacto do Seu José, Lá da Rua Costa Rica" (Pecado Capital)
10. LIT."SANATORIUM"
09. LIT.: "O Princípio da Socialidade"
08. POEMA: "Construção"
07. LIT.: "Senhorita Natividade" (Pecado Capital)
06. LIT.: "Por Que Escolhi o Osmarzinho?"
05. LIT.: "E Assim Caminha a Humanidade..." (Pecado Capital)
04. CRÔNICA: "Penas Flutuantes" (Cinema)
03. POEMA: "Tolas Paixões"
02. POEMA: "Lívia"
01. LIT.: "INSTINTO"

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

MEU VEGETARIANISMO

Por Fernando Furlanetto Galuppo, Janeiro/2017.



Vegan/vegano (inglês/português), em resumo, é o vegetariano que não come nem mesmo ovos ou laticínios, nem nada que tenha explorado quaisquer seres vivos sencientes. 
Senciência é a capacidade de sofrer ou de sentir prazer. 
Senciência sistema nervoso estão conectados quase que unanimemente pela ciência, isto é, é quase que unânime cientificamente que seres que não tenham sistema nervoso, existem biologicamente e estão vivos, mas não sentem dor ou prazer. Logo, vegetais, fungos, etc, não tendo sistema nervoso, não sentem dor. Estão permitidos para o consumo dentro desta concepção ética, portanto.
vegetariano pode adotar tal postura alimentar por duas razões principais cumuláveis: 1) objetivando meramente uma maior qualidade para a própria saúde; ou 2) para boicotar a indústria da dor e não patrocinar sofrimentos (tanto o sofrimento do abate, quanto o da criação, que argumenta-se ser o pior). 
vegan é, por uma questão de convenção linguística, o vegetariano da segunda opção acima, aquele que o faz por boicote à indústria da dor, em estágio muito avançado em disciplina e leque de produtos boicotados.
Eu não sou nem uma coisa nem outra (nem vegetariano, nem vegan), mas resolvi escrever esse texto para refletir sobre minha admiração por ambos, e simultaneamente, refletir sobre minha fraqueza (nossa fraqueza, se o leitor também não for vegetariano/vegan).
A importância do assunto se dá pela ideia da banalidade do mal de Hannah Arendt aplicada à ética alimentar. No caso, tudo o que consumimos, e, portanto, demandamos, patrocinamos, financiamos.
Apesar de o tema ser milenar, já que Pitágoras era vegetariano, somente agora, com a ajuda da internet, é que a humanidade passou a ter acesso a documentários que incomodam setores econômicos aliados de setores midiáticos, e que antes não ganhavam espaço nas velhas videolocadoras de bairro. 
Há quem diga que os animais são os últimos dos oprimidos, já que, fora das ficções de Orwell, não conseguem se rebelar, tampouco formar cabos eleitorais.

Resolvi então escrever esse texto na forma de perguntas e respostas para tentar resumir o mais didaticamente possível as principais dúvidas que eu mesmo tive sobre o assunto, mas principalmente com a intenção de divulgar os materiais que mais me perturbaram positivamente.


1) Quais os melhores documentários sobre ética animal e vegetarianismo?
Para mim, “o melhor documentário de todos os tempos”, de tão contundente e bem feito, é o documentário Terráqueos (Earthlings)
Earthlings, estrelado com a voz do autor Joaquim Phoenix, não é para mim apenas "o melhor documentário sobre um determinado assunto". É "o melhor documentário de todos os tempos" mesmo, dentre todos os documentários que já assisti. É encontrado gratuito e legendado inteirinho no youtube, bastando lançar as palavras-chave.



Depois dele, nesta ordem, recomendo Food Inc (Oscar 2010); O Mundo Segundo a Monsanto (The World According Monsanto); A Carne é Fraca; A Cova (The Cove, Oscar 2010); Pão Nosso de Cada Dia; e Ouro Azul (Blue Gold - World Water Wars). A maioria é encontrada no Youtube, legendados em português. Mas há também um vídeo bem curto do PETA (http://www.peta.org) com cenas fortíssimas, que, aos não cardíacos, vale à pena ser assistido já, antes mesmo de continuarmos a leitura da próxima pergunta:


2) Há algum material sobre o assunto sem cenas muito fortes?
Sim, há. Para quem não consegue assistir cenas fortes há um episódio de desenho dos Simpsons, chamado “Lisa, a Vegetariana”, encontrável neste link abaixo, no qual Lisa se torna vegetariana e passa a sofrer bullying de todos ao seu redor: 

http://mais.uol.com.br/view/vtzludptk2f8/os-simpsons--7-temporada-episodio-5-completo-e-dublado-04028C993572C4B94326



Paul McCartney aparece como personagem dentro desse episódio de desenho precisamente por ser, ele próprio, o vegan mais famoso atualmente vivo, além de ser um dos maiores militantes da causa. 




Além do Paul, há muitos outros vegetarianos/vegans famosos.
Vejamos alguns:



3) Quais os melhores livros sobre animais e vegetarianismo?
Minha leitura nessa temática específica é enxuta. Recomendo dois. O mais perturbador livro que já li foi "Libertação Animal", do Peter Singer:



Para mim, esse livro é a versão escrita do mencionado documentário Earthlings. Earthlings e Libertação Animal basicamente denunciam tudo o que acontece na indústria da dor, ou seja, tudo o que acontece com cada espécie tanto em experimentações científicas quanto na criação e abate para a alimentação. 
Um segundo livro excelente que li foi a autobiografia de Mohandas Karanchand Gandhi (Mahatma Gandhi), chamada "Gandhi: Autobiografia - Minha vida e minhas experiências com a verdade": 




Nessa obra, ao contar sua própria vida, Gandhi vai recomendando dezenas de livros que o inspiraram e o influenciaram, livros estes sobre os mais variados temas. Acaba também recomendando uma série de livros sobre vegetarianismo, tanto livros hindus e, portanto, religiosos, quanto livros laicos de autores vegetarianos ingleses (lidos no período em que Gandhi viveu em Londres para cursar a Faculdade de Direito).





4) Mas como parar de comer carne se necessitamos de proteína?
A “proteína estar somente no mundo animal" é um mito, um equívoco científico e midiático. Precisamos sim, da proteína, mas ela está, também, suficientemente, no mundo vegetal.
O argumento contundente a que tive acesso foi: todo hindu jamais colocou carne, ovos ou laticínios na boca (sendo o mais famoso exemplo o próprio Mahatma Gandhi) e estão todos vivos, bem, e morrendo idosos. Se Gandhi não tivesse sido assassinado, teria vivido bem mais que seus 78 anos. A Índia não tem apenas hindus, e os hindus do mundo não estão apenas na Índia, mas a Índia tem 1.252 bilhão de seres humanos. Seria isso um campo amostral suficiente?
Em suma, precisamos de proteína? Sim, precisamos, isso é verdadeiro, mas a proteína de que nosso corpo necessita, ao contrário do que muitas pessoas de boa fé acredita, apoiada em dogmas científicos não cabalmente comprovados cientificamente, é encontrada suficientemente também no mundo vegetal. Na soja, na berinjela, no espinafre, na couve, no brócolis, na couve-flor, em fungos, no tomate, na salsinha, no pepino, no pimentão, no repolho, dentre muitos outros:




Até mesmo insetos, riquíssimos em proteína, são amplamente consumidos na culinária asiática. Apesar de muitos vegans também serem contra o consumo de insetos, a ONU já se posicionou no sentido de insetos serem o potencial alimento do futuro (http://g1.globo.com/natureza/noticia/2013/05/recomendado-pela-onu-consumo-de-insetos-na-dieta-ja-ocorre-no-brasil.html)
Fato é que somos vítimas da lavagem cerebral de toda e qualquer culturalização milenar apoiada mais nas tradições que na ciência. Crescemos ouvindo que se não comêssemos carne ficaríamos fracos e morreríamos. Isso está culturalmente enraizado em nós. É difícil flexibilizar tal conceito. Bem difícil.
Deverá ocorrer uma reeducação alimentar completa da humanidade. Precisamos, sim, de proteína. Se pararmos de comer carne e passarmos a comer somente agrião, iremos, sim, nos subnutrir e adoecer. Será preciso substituir, com inteligência e planejamento, a carne pelas tantas opções riquíssimas que existem no mundo vegetal, e nesse sentido basta aprendermos as maravilhas da culinária vegetariana com os indianos.
Aquelas notícias que sensacionalizam "uma família", que teve "uma criança" que se subnutriu e morreu "porque era vegetariana", e que agora "merece ir para a guilhotina", conecta a causa daquela específica morte infantil à dieta vegetariana tão falaciosamente quanto o seu número amostral em si. Ainda que se comprove que aqueles pais foram negligentes, negligência familiar há aos montes também que descuidam de inúmeras crianças mortas por atropelamento. É o caso de se culpar a negligência individual, portanto, e não "uma dieta alimentar".
Fosse essa conexão causa mortis e dieta vegetariana real (seja em adultos ou crianças), centenas, milhares e milhões de famílias estariam sendo usados em matérias jornalísticas. No entanto, toda família hindu tem criado suas crianças com a mesma dieta, e onde estão as mortes?
Ora, todo mundo é em algum grau vegetariano ou vegan. Se você se escandalizou com o vídeo do PETA com os abates de cachorros à pauladas, ou com a indústria da carne no Earthlings, saiba que você é, em algum grau, um defensor dos animais, um boicotador de crueldades em animais, e, portanto, um vegan em potencial. Fraco em escala, mas já um "vegan em algum grau". Você nutre empatia e sentimento de justiça por seres sencientes não humanos, isto é, seres que também têm sistemas nervosos, e, portanto, que "sentem dor" tanto quanto a gente (ou mais). O que é preciso agora é ir ampliando o rol de animais que merecerão nossa empatia e compaixão, só isso.
É em algum grau vegan também, por exemplo, aquele indivíduo que boicota casacos de pele, que boicota artigos de couro legítimo, ou que enxerga a dor animal ao receber chicotadas para puxar carroças.
Veja como é simples começar a aumentar a porcentagem vegan que todos temos dentro de nós. Se não consegue imediatamente parar de comer carne, então simplesmente não pare, mas comece a exigir produtos têxteis de materiais que não tenham torturado animais. Comece boicotando vestimentas feitas com peles e ossos de animais, sapatos, sabonetes de gordura animal, etc.
Quando você assistir a uma raposa sendo depelada viva no documentário Earthlings, perceberá despertar uma repulsa gradual pela compra daquele produto, perceberá que já é, em alguma porcentagem, também você um vegan. Desejará boicotar a "indústria da dor" de algum modo ao menos, se não conseguir de todos.
Comece a fazer isso da forma com que conseguir, na quantidade de coisas que conseguir. Comece depois a eliminar tipos de carnes. Elimine somente os bovinos, mantendo o resto, depois, os suínos, depois as aves, até ficar somente no peixe. E por fim, se conseguir, elimine o peixe também. A etapa final será conseguir abolir também os ovos e laticínios, para assim, se tornar um vegan.
Não consegue eliminar por completo cada um desses animais? Estabeleça a liberdade de comê-los apenas socialmente aos finais de semana, e se torne um vegetariano/vegan nos dias úteis ao menos. Se é impossível a metamorfose completa em apenas um dia, que ela então se realize por esses processos graduais, ainda que longos.


6) Comer carne prejudica o meio ambiente?
Os vegetais estão na base da cadeia alimentar, os animais não. Além de um animal consumir toda a água e vegetal que bebe e come diariamente (a ração do gado é à base de soja), ele consome também toda a água absorvida por toda a vida de todo vegetal que lhe serviu de alimento.
Em outras palavras, todo animal no dia de seu abate corresponde à soma de toda a água que bebeu, mais a soma de todos os vegetais que ingeriu (vegetais estes que, por sua vez, correspondem a outra soma de água mais nutrientes de toda a vida desse vegetal).
Portanto, sim, nossa atual população de 7 bilhões de seres humanos consumindo carne diariamente é algo absolutamente devastador para o planeta tanto em termos vegetais, quanto principalmente em termos de água doce.
Pesquisas calculam que um quilo de carne bovina bebe, durante toda sua vida, aproximadamente 100 metros cúbicos de água. Repita-se: apenas UM QUILO, e não o animal inteiro. Imagine então um animal inteiro. Um dado assustador.
Se levamos em consideração que um bovino pesa, em média, 800 quilos, isso nos leva ao terrível número de 80.000 metros cúbicos (ou em números mais mirabolantes, 80.000.000 de litros: oitenta milhões de quilos, ou pior ainda 80 mil toneladas) de água. (Vide tabelas demonstrativas ao final desse texto)
Isso tudo para esse animal virar não só hambúrguer ou churrasco, mas também o couro de sapatos, cintos, jaquetas e demais acessórios desse material; assim como a gordura que vira o sabonete de todos os dias, dentre outros tantos subprodutos mais.
Hoje, num planeta de 7 bilhões de humanos, e num planeta de 3 a 4 vezes mais cabeças de animais vivas sendo criadas para abastecerem esses 7 bilhões de humanos, é preciso calcular as consequências.




7) "- Mas leões comem carne!"
"- Mas Hitler era vegetariano, e veja no que deu!"
Respostas a afirmações como estas dentro do vídeo abaixo:






LEITURAS COMPLEMENTARES:



Leitura complementar sobre carnivorismo e meio ambiente:
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/leaoserva/2014/11/1552073-agronegocio-e-a-morte-da-amazonia.shtml
























domingo, 18 de setembro de 2016

CURTIDAS DE REDES SOCIAIS

Fernando Furlanetto Galuppo, Setembro/2016.

A curtida em função do conteúdo: "- Gostei da mensagem transmitida, bela postagem!"
A curtida em função da autoria: "- Ele(a) é legal, deixa eu curtir!"
A curtida em gangue: "- Arrasou, amiga!"
A curtida gratidão: "- Estou devendo umas curtidas pra ele(a), deixa eu curtir!"
A curtida interesse: "- Precisarei dele(a) no futuro, deixa eu curtir!"
A curtida Maria vai com as outras: "- Tá todo mundo curtindo essa porra, deixa eu curtir!"
A curtida para agradar o paranoico: "- Já faz um tempinho que não curto nenhuma postagem dele(a), deixa eu curtir senão ele(a) vai começar a me estranhar!"
A curtida libido: "- Puta que o pariu, que boca é essa!? Qual seu WhatsApp?"
A curtida gargalhada: "- Hahahahahahahahahahaha"
A curtida preocupação: "- Foda."
A curtida aviso de recebimento: "- Lido."
A curtida carência: "- Hey, eu existo!"
A curtida diplomática: "- Como discordei dele outro dia naquele outro assunto, deixa eu dar uma curtidinha aqui para lubrificar a relação."
A curtida de amizade verdadeira: "- Postagem de evento importante da vida dele(a), fico feliz por ele! Curtido!"
A curtida 'estamos juntos': "- Postagem de evento importante da vida dele(a), e apesar de eu discordar de que esse seja o melhor caminho pra ele(a), preciso curtir pra dar apoio, já que realmente torço por ele(a)."
A curtida antitretânica: "- Não estou a fim de dar sequência nessa treta, ao invés de responder novamente deixa eu curtir pra encerrar!"
A curtida dos tratamentos iguais: "- Já que curti o comentário de outra pessoa na mesma postagem, vai dar problema se eu não curtir o dessa pessoa também, deixa eu curtir!"
A curtida-narciso: "- Eu apareço nessa foto, deixa eu curtir!"
A curtida narciso-grato: "- Nossa! Ele compartilhou a minha postagem! Compartilhamento curtidíssimo!"
A curtida de lógica complexa: "- Nossa, que bosta. Mesmo assim, deixa eu curtir."
A não curtida orgulho: "- Excelente postagem! Mas estou bravo(a) com você, não vou curtir!"
A não curtida orgulho nível dois: "- Putz, excelente postagem de novo! Mas estou bravo(a) com você! Não adianta insistir, não vou curtir!"
A não curtida orgulho nível três: "- Puta que o pariu, que raiva! Essa é sensacional, preciso compartilhar! Outra pessoa precisa ter postado isso também para eu poder compartilhar a partir da postagem de outra pessoa, deixa eu procurar!"



LEITURA COMPLEMENTAR:
O que suas postagens nas redes sociais revelam sobre suas emoções:
http://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-37816962





segunda-feira, 25 de julho de 2016

O FANATISMO E O CAFÉ

Fernando Furlanetto Galuppo, 20/07/2016.

Estava eu outro dia saboreando um deliciosíssimo café de meio de tarde quando reparei que as pessoas que mais me afastaram da esquerda foram curiosamente algumas pessoas da esquerda, e que as pessoas que mais me afastaram da direita foram algumas pessoas da direita.
Reparei também que as pessoas que mais me afastaram da religião foram alguns religiosos e que as pessoas que mais me afastaram do ateísmo foram alguns ateus (já dizia Einstein que “a ciência sem religião é manca, e a religião sem a ciência é cega”). Se aquilo era ser de esquerda, ou de direita, ou religioso, ou ateu, então definitivamente eu não era nada daquilo. Precisaria continuar buscando descobrir o que eu era por meio de outras fontes.
Com o mesmo raciocínio, me ficou evidente que nunca ninguém havia me afastado tanto do feminismo quanto algumas feministas, contrariadas pelos machistas, que me convenceram do feminismo novamente.
Passei tempos duvidando do vegetarianismo/veganismo, já que alguns vegetarianos/vegans, no desespero, chegavam ao ponto de usar argumentos como dizer que "a carne era algo tão errado que sequer tinha gosto, e, por isso, era preciso temperá-la""- Mas a salada também", respondia eu. Porém, mesmo vencidos em argumentos como este, dentre outros, não se rendiam e não havia consenso. Tivessem se rendido ou silenciado em mínimos momentos lógicos de se renderem, teriam me seduzido muito antes. Com o passar do tempo, outros vegetarianos e outras fontes foram me convencendo aos poucos até, enfim, eu reconhecer que, apesar de alguns deles atrapalharem a lógica da argumentação, eles estão mesmo certos (afinal, os hindus em regra são vegans e em regra morrem idosos e saudáveis, esse sim um argumento contundente). Sendo assim, é nobre e legítimo o boicote à indústria da dor. Até a ONU já se manifestou no sentido de que o mundo precisa da dieta sem carne com urgência.
Aquele café de tarde também me fez notar que o que mais me afastou do futebol foram justamente alguns torcedores com suas seitas fanáticas (inclusive os do meu time). Primatas que, em comportamento tribal, praticam todo o tipo de crimes, contra a honra e contra a vida, com quem quer que esteja usando camiseta de clube rival, tão só pela guerra do eu contra o outro.
Além do futebol, quem me vacinou desde cedo contra o zodíaco foram precisamente alguns esotéricos, que passavam a conversar comigo como se estivessem conversando com um atum imediatamente após saberem meu signo (hoje respondo brincando que sou tatu com ascendente em grilo).
Com tantos exemplos de persuasão invertida, a conclusão foi uma só: seriam os fanáticos espiões? Já dizia Nietzsche que "as posições extremas não são seguidas de posições moderadas, e sim de posições contrárias". Para o fanático, o outro é sempre um pária. Se os especialistas fizessem um profundo estudo empírico da eficácia do fanatismo, iriam comprovar que "o fanático mais eficaz" talvez seja aquele situado no ponto de equilíbrio entre os cinquenta e os cem por cento da "escala fanática", isto é, um fanático "raçudo, porém flexível". Em outras palavras, o mais eficaz militante para sua causa provavelmente deva ser "o setenta e cinco por cento apegado", e nada além, já que, depois desse ponto, se torna um fanático em sentido estrito, conseguindo exatamente o contrário do que sua bandeira pretende.
O que fazer então para não nos tornarmos fanáticos inimigos de nossas próprias causas? Ora, um milenar provérbio chinês já dizia: "professor abrir porta, aluno entrar sozinho".
Na arte da argumentação, tão antiga quanto a própria humanidade, aquele que se propõe a convencer alguém de qualquer coisa deveria sempre levar em conta a filosofia deste provérbio.
Argumentar deveria ser como deixar uma porta discretamente entreaberta através da qual deverá sair um delicioso aroma de café feito na hora.
De dentro, com voz serena e sem citar os nomes dos convidados, deverá sair um gentil aviso, sem esperar resposta:
"- O café está pronto, pessoal."



LEITURA COMPLEMENTAR:









quinta-feira, 7 de julho de 2016

O DICIONÁRIO DO CENTRO DO MUNDO

Fernando Furlanetto Galuppo, Agosto/2016.

Arrogante: Aquele cuja forma de falar ou cujas coisas faladas me irritam.
Ateu: Aquele que tem fé ainda que minimamente menos do que eu. Obs.: Os cristãos eram chamados de ateus pelos romanos porque não acreditavam em todos os deuses. Vide carola.
Carola: Aquele que tem fé ainda que minimamente mais do que eu. Vide ateu.
Chato: Aquele que não concorda comigo. Quer me agradar? Quer ser agradável? Concorde comigo. Vide cuzão.
Contato: Aquilo que as redes sociais chamam de "amigo".
Coxinha: Aquele ainda que minimamente mais de direita do que eu. Polo oposto ao petralha, que seria aquele ainda que minimamente mais à esquerda do que eu. Só eu estou no ponto ideal da escala. Um guaraná, para um suco de laranja, é de direita; para uma coca cola, de esquerda. Vide petralha.
Cuzão: Aquele que me afronta e não se preocupa em me agradar. Um chato afrontador.
Democracia: O discurso que uso quando venci por meio de votação.
Ditadura: O discurso que uso quando perco a votação na democracia.
Fila: A ordem natural das coisas que odeio obedecer.
Fila preferencial: A expressão que traduzo e interpreto como "pegue esta fila".
Gente boa: Aquele que, sendo gente boa ou sendo gente ruim, me faz rir e/ou me lembra muito a mim mesmo.
Golpe: Qualquer ato do meu opositor contra mim, dentro ou fora da lei. Vide impeachment.
Governabilidade: O termo que uso para a canalhice que pratico quando me coligo com canalhas por necessidade estratégica
Grosso: O outro, quando, ainda que falando normalmente, diz algo em algum tom psíquico-vibratório que me desagrada.
Impeachment: Ação constitucional minha contra meu opositor, dentro ou fora da lei. Vide golpe.
Invejoso: Aquele que realmente sente inveja de alguém, ou aquele que me confronta, pois diagnosticar inveja como "o mal do meu confrontador" me permite duas coisas em uma tacada só: criticá-lo e elogiar a mim mesmo.
Lucro: O justo preço somado à minha máxima extorsão possível sobre o outro.
Petralha: Aquele ainda que minimamente mais de esquerda do que eu. Polo oposto ao coxinha, que seria aquele ainda que minimamente mais à direita do que eu. Só eu estou no ponto ideal da escala. Um guaraná, para um suco de laranja, é de direita; para uma coca cola, de esquerda. Vide coxinha.
Teimoso: O outro, quando não se curva ao eu.
Terrorista: Aquele grupo de terríveis no qual eu insiro também todos aqueles que, mesmo cumprindo estritamente a lei, eu odeio mesmo assim.



LEITURA COMPLEMENTAR:
A Engenharia Reversa da Argumentação:
https://direitosfundamentais.net/2013/11/18/a-engenharia-reversa-da-argumentacao/

terça-feira, 19 de abril de 2016

DEMOCRACIA DE TABULEIRO

Fernando Furlanetto Galuppo, 18.04.2016. Texto públicado no Jornal Correio Popular, de Campinas, p.2




O jogo atual que todos chamam democracia pouco tem de democrático. Vivemos uma aristocracia em alternância de poder. Um jogo de tabuleiro como o war, o ludo, o resta um, o xadrez. Um jogo lúdico cheio de regrinhas complexas que definem vencedor e vencido a cada ciclo de alternância.
Esse jogo pouco tem de democrático em todas as fases, e não somente na atual brasileira, como alguns têm sustentado. A começar pela campanha, cuja obrigação de filiação a partido político e vedação de candidatura individual (como na França) faz com que inexistam candidatos descomprometidos com partidos e seus apaniguados.
Passamos então à permissividade de doações privadas a políticos, capital este usado para compra de espaços midiáticos e souvenirs eleitoreiros, resultando na impossibilidade de se vencer eleição sem patrocínios e alianças. Um brinde à governabilidade. Consequência? Empreiteiras, bancos, multinacionais e governos (azuis ou vermelhos) financiando candidatos nacional e internacionalmente.
A falácia continua na não transparência do exercício do poder, na fictícia fiscalização desse exercício, assim como no seu processamento e julgamento (inevitavelmente políticos, e não jurídicos, como a teoria quer).
Os julgadores dos altos réus (parlamentares e não juízes de carreira) são, na prática, lobistas de corporações ou governos estrangeiros, palhaços, reacionários variados, ex-BBBs, jogadores de futebol, fazendeiros, pagodeiros, etc, todos sem capacitação para legislar ou julgar.
O julgamento é à base de votos (apaixonados, na teoria; leiloáveis, na prática) e não à base do devido processo legal (muito embora até juízes togados muitas vezes não saibam julgar). Tudo com muito pouca democracia, e farta aleatoriedade. Prepondera, assim, o político sobre o jurídico em todas as fases e não somente em uma, já que até mesmo a composição da cúpula do Judiciário se dá pelo Chefe do Executivo (outra aberração constitucional nossa).
Pois bem. Assim como Collor, também Dilma-Temer (essa figura mítica grega tupiniquim de duas cabeças) chegou à vitória pelas regrinhas regulares do jogo de tabuleiro chamado Democracia Brasileira. Agora, também com atendimento formal dessas mesmas regrinhas mais políticas que jurídicas (que não mudaram desde o Collor), os dados lançados atuam contra Dilma, tal qual fizeram com o caçador de marajás.
Assume quem? Temer. Votado por todo aquele que votou em Dilma, afinal, dizem que presidente e vice são eleitos no mesmíssimo voto, e que podem ser adversários históricos (regras do jogo atual).
Ora, pela lógica, não deveria haver histeria coletiva com a saída de Dilma, se o vice é quem assume e se esse vice também foi escolhido no mesmíssimo voto do Presidente eleito. Se há histeria, então é porque se admite a contragosto pacto com o demônio desde o início. E algo não vai errado nas regras de um jogo assim? Votei no Corinthians, com o Palmeiras como vice?
O mais interessante da falência desse jogo é que todos que apoiam Dilma rejeitam o PMDB, e todos que rejeitam Dilma, também rejeitam o PMDB. No entanto, ironicamente, seremos agora governados justamente pelo grande rejeitado. Tudo dentro da forma da Constituição, simultaneamente contra e à favor da vontade da população.
E por que se quer o impeachment? Porque o país está o caos. Porque a corrupção transborda (Mariana-MG manda lembranças). Porque não há uma obra não super faturada no país. Porque as promessas de campanha não foram cumpridas. Porque há aumento crescente de impostos e preços de mercado. Porque o povo agoniza diante da calamidade econômica enquanto os salários e regalias de Estado aumentam. Contrato social mais rasgado do que nunca.
Nesse caos, com Temer Presidente (ou Presidento), passaremos a temer quem será o novo vice, rezando para que o novo presidente não viaje.
Que jogo de tabuleiro sensacional, não é mesmo?
Outra aberração é o sistema proporcional, que coloca no Legislativo inúmeros candidatos que foram pouquíssimo votados, "puxados" pelo candidato mais votado do mesmo partido, como ocorreu, por exemplo, com o Tiririca, que elegeu tantos outros.
O circo manicomial da votação do impeachment, por sua vez, grita a falência do modelo atual e coloca Dilmistas, Lulistas, Aecistas, FHCistas, Marinistas, Campistas, Jorgistas, Genrristas, Cristovanistas, e nulistas, todos unidos ao menos na vergonha alheia do baixíssimo nível de nossos parlamentares e de nosso sistema eleitoral circense.
Soluções? O voto de rejeição, que é, na prática, o que todos já fazemos na psicologia do voto: votar contra, e não a favor. Já que já fazemos isso inevitavelmente, então todo eleitor passaria a votar duas escolhas simultâneas: 1) o candidato desejado; e 2) o voto de rejeição (quem ele não quer de modo algum). Os dois candidatos mais rejeitados (ou todos rejeitados acima de certa porcentagem) estariam automaticamente excluídos do pleito. O segundo turno teria os dois candidatos mais votados não excluídos por rejeição.
Com isso, um mandato público jamais seria entregue antidemocraticamente a candidato rejeitado, e PT, PSDB e PMDB não mais venceriam eleições, dando espaço a novas propostas, que só se manteriam se provassem a que vieram. Diante da falência absoluta do jogo, invoca-se todas as mentes do país por novas soluções.
LEITURA COMPLEMENTAR:

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/04/1765870-o-poder-do-dinheiro-e-a-maior-ameaca-a-democracia-diz-fukuyama.shtml

sábado, 30 de janeiro de 2016

VOCÊ É A FAVOR OU CONTRA?

Fernando Furlanetto Galuppo, 30.01.2016.

Você é a favor ou contra as esculturas italianas cobertas para não ofenderem o presidente do Irã?
Você é a favor ou contra a proibição da volta da publicação oficial do livro Mein Kampf, do Hitler?
Você é a favor ou contra o Impeachment?
Você é a favor ou contra a Rainha da Inglaterra?
Você é a favor ou contra gordo usando pochete?
Você é a favor ou contra a boca da Angelina Jolie?
Você é a favor ou contra o açaí com granola?
Você é a favor ou contra o novo design do vaso sanitário para que o ser humano defeque de maneira mais anatômica?
Você é a favor ou contra a impressão 3D?
Você é a favor ou contra o "Ordem e Progresso", escrito na bandeira do Brasil?
Você é a favor ou contra o sexo feito por prazer e não somente por reprodução?
Você é a favor ou contra a camisinha?
Você é a favor ou contra o Google Glass?
Você é a favor ou contra homem usando camisa rosa?
Você é a favor ou contra somente mulheres poderem ir juntas ao banheiro e homens não?
Você é a favor ou contra o tabaco?
Você é a favor ou contra o BBB?
Você é a favor ou contra o Louro José, da Ana Maria Braga?
Você é a favor ou contra o "boicote ao Oscar sem negros"?
Você é a favor ou contra a liberdade econômica de as operadoras de celular interromperem completamente a conexão de internet após o uso de uma certa quota de dados?
Você é a favor ou contra o teorema de Pitágoras?
Você é a favor ou contra a pipoca de microondas?
Você é a favor ou contra o Papa Francisco?
Você é a favor ou contra o emagrecimento da Adele?
Você é a favor ou contra a volta do Fusca?
Você é a favor ou contra o carnaval?
Você é a favor ou contra o hambúrguer vegan?
Você é a favor ou contra o sistema financeiro internacional?
Você é a favor ou contra a lei da gravidade?
Você é a favor ou contra a volta dos trens nos países subdesenvolvidos?
Você é a favor ou contra o sertanejo universitário?
Você é a favor ou contra o zodíaco?
Você é a favor ou contra enchimento nos soutiens?
Você é a favor ou contra o Islã?
Você é a favor ou contra o Charlie Hebdo?
Você é a favor ou contra o casamento?
Você é a favor ou contra as roupas com ar condicionado inventadas pelos japoneses?
Você é a favor ou contra a nudez?
Você é a favor ou contra o Supremo Tribunal Federal brasileiro?
Você é a favor ou contra a chave de fenda?
Você é a favor ou contra o alicate?
Você é a favor ou contra o Aedes Aegypti?
Você é a favor ou contra manjericão no molho de tomate?
Você é a favor ou contra a hipocrisia?
Você é a favor ou contra a fonoaudiologia do Cazuza?
Você é a favor ou contra a justiça com as próprias mãos?
Você é a favor ou contra as abelhas?
Você é a favor ou contra a Rainha das Abelhas?
Você é a favor ou contra a Escolinha do Professor Raimundo?
Você é a favor ou contra a abolição do representante político pelas novas tecnologias?
Você é a favor ou contra o heliocentrismo?
Você é a favor ou contra a crase?
Você é a favor ou contra o cocô de plástico de brinquedo?
Você é a favor ou contra?


LEITURA COMPLEMENTAR:
1) Preconceito implícito:
http://www2.uol.com.br/sciam/artigos/preconceito_implicito.html

2) A Engenharia Reversa da Argumentação:
https://direitosfundamentais.net/2013/11/18/a-engenharia-reversa-da-argumentacao/





sábado, 26 de dezembro de 2015

REX

Fernando Furlanetto Galuppo, Dez/2015.

Uma senhora certa vez decidiu ter um gato.
Não que tivesse decidido de caso pensado, mas um gato filhote havia sido visto brincando em suas roseiras, e, com o passar das semanas, o gato foi ficando, ficando, até definitivamente se tornar um membro da família.
Como sempre tivera cachorros, e jamais gatos, apesar de o tratar com muito carinho, a velha o criou sem distinções em relação aos vira-latas da casa, sobretudo para não criar privilégios, imunidades, foro privilegiado, nem despertar ciúme ou indisposições.
Era um gato-cachorro, enfim. Até coleira com nome e número de telefone para contato o novato ganhara. Se os cães a tinham? O bichano também merecia, por que não?
Coleira, trela, casinha, tigela de água, tigela de ração, ração canina, brinquedos caninos. Até mesmo o nome escolhido pro gato fora um nome canino, isto é, comum de se ver somente em cachorros, ao menos naquela sociedade em questão.
Na infância e adolescência do gato tudo foi festa, e era uma farra só com os cães irmãos. Não era difícil, afinal, agir como cão seguindo os demais, mas o tempo passou, o filhote se foi e o adulto chegou. E foi aí que os problemas começaram.
Jean Cocteau já dizia que, se prefere os gatos aos cães, é porque não existem gatos policiais. Possível expressão da independência intrínseca de qualquer gato, incompatível com a necessária obediência hierárquica da carreira policial, inata aos cães.
Em outras palavras, gatos são formados em Filosofia, com mestrado em Lógica Formal e doutorado em política não-simbiótica à luz de Heidegger (com PhD em aberto, de preferência no estrangeiro).
O que a mulher não sabia, ou não queria saber, era que gatos são de se domesticar até certo ponto, e se não se lhes domestica mais, não é por falta de amor destes para com seus donos, e sim pelo estrago gradual que os diálogos de Platão catalizam em suas mentes desde o vestibular.
O primeiro e mais grave problema entre a prestativa velhinha e seu “cachorro rebelde” fora a insurreição do felino ao uso da trela.
Até coleira vá lá que, se ensinados desde cedo, alguns gatos a usam com pouco chiar, mas trela a conduzir onde um gato deva ou não caminhar o tempo todo é uma coisa que quase nunca se viu no mundo felino, dos gatos aos tigres, dos contos de fadas ao Discovery Channel, e isso foi incomodando dia após dia o instinto daquele animal até não suportar mais e não mais se deixar aproximar quando via o objeto. Quando acontecia? Fugia e ninguém o encontrava por horas. Se lhe forçassem na força física? Era briga na certa.
Aquilo magoou profundamente a prestativa mulher. Todo carinho, todo conforto, toda dedicação, todos os braços abertos e todas as boas vindas recebidas na infância, toda a igualdade com os cães, todas as cortesanias, todos os ossinhos de couro e todos os leites quentinhos, tudo isso para tamanha ingratidão. Tudo o que aquela anciã queria era somente o bem do gatinho, e, obviamente, sua gratidão.
Já a partir da primeira fuga, iniciou-se verdadeira queda de braço para mostrar ao animal quem mandava por ali, e que se tanto recebia da casa, o mínimo era que devesse sua gratidão e se comportasse como os demais.
Mas não tinha jeito, gatos amam mas não usam trela; gatos amam, mas se ausentam para suas leituras aristotélicas. E o não uso daquela trela somado às ausências daquele gato perturbavam por completo a ordem e a disciplina daquela casa.
Agravante para a deterioração do relacionamento foi a obediência cega e risonha dos vira-latas à matriarca, quem infelizmente confundia tal obediência necessariamente com lealdade e gratidão.
Tivesse tido somente gatos, talvez a decepção da mulher fosse nula ou inversa, na medida em que gato seria comparado com gato, mas fatal era se comparar gato a cachorro e inconscientemente eleger como variável de mérito: a submissão.
A submissão como variável de mérito para amizade ou afeto, aliás, é corriqueiro equívoco lógico que engana até mesmo os mais cautos, por vezes eliminando verdadeiros amigos e por vezes aproximando secretos inimigos, vez que os aduladores se assemelham aos amigos como os lobos aos cães.
De qualquer forma, a implicância com o felino havia nascido e se consolidado. Para a mulher, os vira-latas eram exemplos na casa e ponto final. Funcionários do mês sempre. Cagassem onde fosse, quebrassem o vaso que fosse, mordessem o pé de mesa que fosse, o perdão lhes era irrestrito, pois deixavam colocar sobre si a trela colorida, pois vinham correndo no menor assobio, pois riam mesmo que não tivessem entendido a piada.
Já o gato, outrora fofinho, era hoje para ela um chato. Era hoje para ela um gato estressado que não se deixava colocar o cordão no pescoço; que não ria de suas piadas como os cães o faziam. Custava ceder? Um gato ingrato, enfim.
Diante desse para os cães tudo e para os gatos a lei, defecar dentro de casa era então crime inafiançável para felinos, e, diferentemente dos caninos, isso o gato já fazia bem longe, fora de casa, para não dar a menor margem para discussões.
Vasos? De nenhum dos vasos da casa o gato se aproximava mais, pois se por um infortúnio quebrasse algum, provável seria que a velha não lhe teria a mesma clemência tida com a outra espécie, e a carrocinha era um tabu entre os animais domésticos. Se bobeasse, ainda poderia receber a culpa por algum vaso que sequer quebrou.
Amor ainda havia, pois memória sempre há e haverá, e amor não se esgota, nem por orgulho, assim tão facilmente, mas crescia a distância e o silêncio. Se o gato miava com suavidade, aquilo irritava a mulher bem mais que um estrondoso latido, e como ação e reação geram efeitos recursivos progressivos, isso fez com que o gato, já quieto, passasse a introspectar suas palavras ainda mais e se tornar cada vez menos simpático, pelo menos aos olhos daquela casa.
Antes de sair de casa quase de vez e voltar apenas em feriados especiais, o gato ainda ousou fingir se alegrar na novela para ver a mulher mudar para o futebol (que era precisamente o que o gato queria). Quando sua técnica pareceu ter sido percebida, para não assistir à novela, o gato chegou a fingir torcer profundamente para um time específico somente para ver a mulher manter o canal e torcer pelo outro. Inúmeros estratagemas haviam sido experimentados, mas o gato sabia serem meros paliativos e não a verdadeira solução para a situação.
Com a chegada das eleições, do ponto cego da prateleira mais alta da estante de livros, o gato chegou a ouvir a mulher lhe difamar pelas costas tão somente por votar nulo, enquanto que os cães, que surpreendentemente votaram no partido contrário ao da mulher, apenas ganharam meio biscoito ao invés de um como punição, sem difamações.
Com o passar dos meses, para tentar analisar se a perseguição era pessoal ou se era mesmo ele um indivíduo execrável que não servia para nada, o gato danado simulou direitismos para ver a mulher em seguida bradar esquerdismos; simulou esquerdismos, para ver a mulher novamente reagir no inverso. Atuou ciência para ouvir religião e desenvolveu religião, quando queria ouvir ciência. Miou samba para que se ligasse o sertanejo, e desdenhou o cobertor quando não o queria ausente.
A trela continuava a ser tentada, e a resposta do gato continuava a de sempre: negativa, posto que insuportável ser puxado pelo pescoço, sabe-se lá por qual motivo da natureza.
Os cães, por sua vez, percebiam o que se passava, e alguns deles inclusive se compadeciam com a dor do gato na situação, mas pouco ou nada faziam, vez que, neste caso concreto, a lealdade vertical prevalecia sobre a horizontal.
Ao completar seu segundo ano de vida na casa das roseiras, e ao ver que um cocô de cachorro no tapete persa da sala incomodava a anciã pouco mais que sua voz felina eventualmente pronunciando alguma unanimidade, o gato percebeu que era melhor ser o gato de botas que o gato de Schrodinger, e então se foi em direção à Atenas para nunca mais voltar, e isto porque percebeu que a dificuldade humana de gostar de gatos está diretamente ligada à dificílima capacidade de amar sem dominar.

LEITURA COMPLEMENTAR:
1) Preconceito implícito:
http://www2.uol.com.br/sciam/artigos/preconceito_implicito.html