terça-feira, 20 de setembro de 2016

ÍNDICE DE TEXTOS

55. CRÔNICA: "Curtidas de Redes Sociais"
54. CRÔNICA: "O Fanatismo e o Café"
53. CRÔNICA: "Mini Dicionário Ególatra da Língua Portuguesa"
52. CRÔNICA: "Democracia de Tabuleiro"
51. CRÔNICA: "Você é a Favor ou Contra?"
50. CRÔNICA: "Rex"
49. CRÔNICA: "O Pêndulo"
48. CRÔNICA: "Jiu Jitsu vs. Boxe"
47. CRÔNICA: "O Jornalismo Científico Marrom"
46. ARTIGO: "Se Eu Fosse Legislador"
45. CRÔNICA: "Os Livros da Minha Vida"
44. POEMA: "Recursos Hídricos"
43. CRÔNICA: "Algumas Falácias Lógicas de Conversas de Bar Sobre Política"
42. LIT.: "Os Três Amigos e o Tempo"
41. ARTIGO: "CEO e CEO"
40. ARTIGO: "O Botão Curtir de 1 Centavo"
39. ARTIGO: "Ciência e Moral Terão Convergência Racional no Século XXI?"
38. CRÔNICA: "Argumentandum ad Hominem"
37. CRÔNICA: "A Arte da Elegância da Era Virtual"
36. CRÔNICA: "O que eu diria a mim mesmo muitos anos atrás?"
35. CRÔNICA: "Ufologia"
34. LIT.: "Autoretrato em Alterego"
33. LIT.: "Autoretrato"
32. CRÔNICA: "Sobre Leis e Salsichas"
31. NOTÍCIA FICTÍCIA: A PEC dos Precatórios
30. JURÍDICO"LIBENTER"
29. CRÔNICA: "Abre a Boca e Fecha os Olhos"
28. LIT.: "O Trono e o Recalcado" (Pecado Capital)
27. JURÍDICO: "SER E VIVER", Editora Santuário.
26. LIT.: "O Sofá"
25. MÚSICA: "QUANDO FOR" (3’52’’)
24. JURÍDICO: "III Concurso Nacional de Monografias da OAB/2005"
23. LIT.: "O Círculo Menor"
22. LIT.: "O Neto da Puta" (Pecado Capital)
21. LIT.: "Aranóia"
20. POEMA: "Negro"
19. POEMA: "José e o Amuleto"
18. POEMA: "Verde Pátria Minha"
17. LIT.: "A Teoria da Bolha" (Pecado Capital)
16. POEMA: "Ágape"
15. POEMA: "Água"
14. LIT.: "Quatro-e-nove" (Pecado Capital)
13. CRÔNICA: "Meu Pai"
12. LIT.: "Contraponto"
11. LIT.: "O Pacto do Seu José, Lá da Rua Costa Rica" (Pecado Capital)
10. LIT."SANATORIUM"
09. LIT.: "O Princípio da Socialidade"
08. POEMA: "Construção"
07. LIT.: "Senhorita Natividade" (Pecado Capital)
06. LIT.: "Por Que Escolhi o Osmarzinho?"
05. LIT.: "E Assim Caminha a Humanidade..." (Pecado Capital)
04. CRÔNICA: "Penas Flutuantes" (Cinema)
03. POEMA: "Tolas Paixões"
02. POEMA: "Lívia"
01. LIT.: "INSTINTO"

domingo, 18 de setembro de 2016

CURTIDAS DE REDES SOCIAIS

Fernando Furlanetto Galuppo, Setembro/2016.

A curtida em função do conteúdo: "- Gostei da mensagem transmitida, bela postagem!"
A curtida em função da autoria: "- Ele(a) é legal, deixa eu curtir!"
A curtida em gangue: "- Arrasou, amiga!"
A curtida gratidão: "- Estou devendo umas curtidas pra ele(a), deixa eu curtir!"
A curtida interesse: "- Precisarei dele(a) no futuro, deixa eu curtir!"
A curtida Maria vai com as outras: "- Tá todo mundo curtindo essa porra, deixa eu curtir!"
A curtida para agradar o paranoico: "- Já faz um tempinho que não curto nenhuma postagem dele(a), deixa eu curtir senão ele(a) vai começar a me estranhar!"
A curtida libido: "- Puta que o pariu, que boca é essa!? Qual seu WhatsApp?"
A curtida gargalhada: "- Hahahahahahahahahahaha"
A curtida preocupação: "- Foda."
A curtida aviso de recebimento: "- Lido."
A curtida carência: "- Hey, eu existo!"
A curtida diplomática: "- Como discordei dele outro dia naquele outro assunto, deixa eu dar uma curtidinha aqui para lubrificar a relação."
A curtida de amizade verdadeira: "- Postagem de evento importante da vida dele(a), fico feliz por ele! Curtido!"
A curtida 'estamos juntos': "- Postagem de evento importante da vida dele(a), e apesar de eu discordar de que esse seja o melhor caminho pra ele(a), preciso curtir pra dar apoio, já que realmente torço por ele(a)."
A curtida antitretânica: "- Não estou a fim de dar sequência nessa treta, ao invés de responder novamente deixa eu curtir pra encerrar!"
A curtida dos tratamentos iguais: "- Já que curti o comentário de outra pessoa na mesma postagem, vai dar problema se eu não curtir o dessa pessoa também, deixa eu curtir!"
A curtida-narciso: "- Eu apareço nessa foto, deixa eu curtir!"
A curtida narciso-grato: "- Nossa! Ele compartilhou a minha postagem! Compartilhamento curtidíssimo!"
A curtida de lógica complexa: "- Nossa, que bosta. Mesmo assim, deixa eu curtir."
A não curtida orgulho: "- Excelente postagem! Mas estou bravo(a) com você, não vou curtir!"
A não curtida orgulho nível dois: "- Putz, excelente postagem de novo! Mas estou bravo(a) com você! Não adianta insistir, não vou curtir!"
A não curtida orgulho nível três: "- Puta que o pariu, que raiva! Essa é sensacional, preciso compartilhar! Outra pessoa precisa ter postado isso também para eu poder compartilhar a partir da postagem de outra pessoa, deixa eu procurar!"



LEITURA COMPLEMENTAR:
O que suas postagens nas redes sociais revelam sobre suas emoções:
http://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-37816962





segunda-feira, 25 de julho de 2016

O FANATISMO E O CAFÉ

Fernando Furlanetto Galuppo, 20/07/2016.

Estava eu outro dia saboreando um deliciosíssimo café de meio de tarde quando reparei que as pessoas que mais me afastaram da esquerda foram curiosamente algumas pessoas da própria esquerda. E que, de igual modo, as pessoas que mais me afastaram da direita foram algumas pessoas da própria direita.
Reparei também que as pessoas que mais me afastaram da religião foram justamente alguns religiosos e que as pessoas que mais me afastaram do ateísmo foram alguns ateus (já dizia Albert Einstein que “a ciência sem religião é manca, e a religião sem a ciência é cega”).
Se aquilo era ser de esquerda, ou de direita, ou religioso, ou ateu, então definitivamente eu não era nada daquilo. Precisaria continuar buscando descobrir o que eu era por meio de outras fontes.
Com o mesmo raciocínio, ficou evidente para mim que nunca ninguém havia me afastado tanto do feminismo quanto algumas feministas, contrariadas de pronto pelos machistas, que me convenceram do feminismo novamente.
Passei tempos duvidando do vegetarianismo/veganismo, já que alguns vegetarianos/vegans, no desespero, chegavam ao ponto de usar argumentos como dizer que "a carne era algo tão errado que sequer tinha gosto, e, por isso, era preciso temperá-la""- Mas a salada também", respondia eu. Porém, mesmo vencidos em argumentos como este, dentre alguns outros, não se rendiam e não havia consenso. Tivessem se rendido nos momentos lógicos de se renderem, teriam me seduzido muito antes. Outros vegetarianos e outras fontes foram me convencendo até, enfim, reconhecer que apesar de alguns deles atrapalharem a lógica da argumentação, eles estão mesmo certos (afinal, os hindus em regra são vegans e em regra morrem idosos e saudáveis, esse sim um argumento contundente). Sendo assim, era nobre e legítimo o boicote à indústria da dor, sendo que há pouco tempo até a ONU se manifestou dizendo que o mundo precisa se tornar vegetariano com urgência.
Aquele café de tarde também me fez notar que o que mais me afastou do futebol foram justamente alguns torcedores com suas seitas fanáticas (inclusive os do meu time), que, em comportamento tribal, praticam todo tipo de crimes contra quem quer que esteja usando camiseta de clube diverso, tão só pela guerra do eu contra o outro.
Além do futebol, quem me vacinou desde cedo contra o zodíaco foram precisamente alguns esotéricos, que passavam a conversar comigo como se estivessem conversando com um atum imediatamente após a resposta da pergunta de qual seria o meu signo (hoje respondo brincando que sou tatu com ascendente em grilo).
Com tantos exemplos de persuasão invertida, a conclusão foi uma só: seriam os fanáticos espiões?
Já dizia Nietzsche que "as posições extremas não são seguidas de posições moderadas, e sim de posições contrárias". Para o fanático, o outro é sempre um pária. Penso assim que se os especialistas fizessem um profundo estudo empírico da eficácia do fanatismo, iriam comprovar que "o fanático mais eficaz" talvez seja aquele situado no ponto de equilíbrio entre os cinquenta e os cem por cento da "escala fanática", isto é, um fanático "raçudo, porém flexível". Em outras palavras, o mais eficaz militante para sua causa provavelmente deva ser "o setenta e cinco por cento apegado", e nada além, já que depois desse ponto se torna um fanático, conseguindo exatamente o contrário do que suas bandeiras pretendem. 
O que fazer então para não nos tornarmos fanáticos inimigos de nossas próprias causas?
Ora, um milenar provérbio chinês já dizia: "professor abrir porta, aluno entrar sozinho".
Na arte da argumentação, tão antiga quanto a própria humanidade, aquele que se propõe a convencer alguém de qualquer coisa deveria sempre levar em conta a filosofia deste provérbio.
Argumentar deveria ser como deixar uma porta discretamente entreaberta através da qual deverá sair um delicioso aroma de café feito na hora. De dentro, com voz serena, e sem citar os nomes dos convidados, deverá sair um gentil aviso sem esperar resposta:
"- O café está pronto, pessoal."




LEITURA COMPLEMENTAR:








quinta-feira, 7 de julho de 2016

MINI DICIONÁRIO EGÓLATRA DA LÍNGUA PORTUGUESA

Fernando Furlanetto Galuppo, Agosto/2016.

Arrogante: Aquele cuja forma de falar ou cujas coisas faladas me irritam.
Ateu: Aquele que tem fé ainda que minimamente menos do que eu. Obs.: Os cristãos eram chamados de ateus pelos romanos porque não acreditavam em todos os deuses. Vide carola.
Carola: Aquele que tem fé ainda que minimamente mais do que eu. Vide ateu.
Chato: Aquele que não concorda comigo. Quer me agradar? Quer ser agradável? Concorde comigo. Vide cuzão.
Contato: Aquilo que as redes sociais chamam de "amigo".
Coxinha: Aquele ainda que minimamente mais de direita do que eu. Polo oposto ao petralha, que seria aquele ainda que minimamente mais à esquerda do que eu. Só eu estou no ponto ideal da escala. Um guaraná, para um suco de laranja, é de direita; para uma coca cola, de esquerda. Vide petralha.
Cuzão: Aquele que me afronta e não se preocupa em me agradar. Um chato afrontador.
Democracia: O discurso que uso quando venci por meio de votação.
Ditadura. O discurso que uso quando perco a votação na democracia.
Fila: A ordem natural das coisas que odeio obedecer.
Fila preferencial: A expressão que traduzo e interpreto como "pegue esta fila".
Gente boa: Aquele que, sendo gente boa ou sendo gente ruim, me faz rir e/ou me lembra muito a mim mesmo.
Golpe: Qualquer ato do meu opositor contra mim, dentro ou fora da lei. Vide impeachment.
Governabilidade: O termo que uso para a canalhice que pratico quando me coligo com canalhas por necessidade estratégica
Grosso: O outro, quando, ainda que falando normalmente, diz algo em algum tom psíquico-vibratório que me desagrada.
Impeachment: Ação constitucional minha contra meu opositor, dentro ou fora da lei. Vide golpe.
Lucro: O justo preço somado à minha máxima extorsão possível sobre o outro.
Petralha: Aquele ainda que minimamente mais de esquerda do que eu. Polo oposto ao coxinha, que seria aquele ainda que minimamente mais à direita do que eu. Só eu estou no ponto ideal da escala. Um guaraná, para um suco de laranja, é de direita; para uma coca cola, de esquerda. Vide coxinha.
Teimoso: O outro, quando não se curva ao eu.
Terrorista: Aquele grupo de terríveis no qual eu insiro também todos aqueles que, mesmo cumprindo estritamente a lei, eu odeio mesmo assim.
Você merece: Expressão comumente pronunciada para parabenizar pessoas que por alguma razão não despertam inveja, quer elas mereçam mesmo ou ou não.


LEITURA COMPLEMENTAR:
A Engenharia Reversa da Argumentação:
https://direitosfundamentais.net/2013/11/18/a-engenharia-reversa-da-argumentacao/

terça-feira, 19 de abril de 2016

DEMOCRACIA DE TABULEIRO

Fernando Furlanetto Galuppo, 18.04.2016. Texto públicado no Jornal Correio Popular, de Campinas, p.2




O jogo atual que todos chamam democracia pouco tem de democrático. Vivemos uma aristocracia em alternância de poder. Um jogo de tabuleiro como o war, o ludo, o resta um, o xadrez. Um jogo lúdico cheio de regrinhas complexas que definem vencedor e vencido a cada ciclo de alternância.
Esse jogo pouco tem de democrático em todas as fases, e não somente na atual brasileira, como alguns têm sustentado. A começar pela campanha, cuja obrigação de filiação a partido político e vedação de candidatura individual (como na França) faz com que inexistam candidatos descomprometidos com partidos e seus apaniguados.
Passamos então à permissividade de doações privadas a políticos, capital este usado para compra de espaços midiáticos e souvenirs eleitoreiros, resultando na impossibilidade de se vencer eleição sem patrocínios e alianças. Um brinde à governabilidade. Consequência? Empreiteiras, bancos, multinacionais e governos (azuis ou vermelhos) financiando candidatos nacional e internacionalmente.
A falácia continua na não transparência do exercício do poder, na fictícia fiscalização desse exercício, assim como no seu processamento e julgamento (inevitavelmente políticos, e não jurídicos, como a teoria quer).
Os julgadores dos altos réus (parlamentares e não juízes de carreira) são, na prática, lobistas de corporações ou governos estrangeiros, palhaços, reacionários variados, ex-BBBs, jogadores de futebol, fazendeiros, pagodeiros, etc, todos sem capacitação para legislar ou julgar.
O julgamento é à base de votos (apaixonados, na teoria; leiloáveis, na prática) e não à base do devido processo legal (muito embora até juízes togados muitas vezes não saibam julgar). Tudo com muito pouca democracia, e farta aleatoriedade. Prepondera, assim, o político sobre o jurídico em todas as fases e não somente em uma, já que até mesmo a composição da cúpula do Judiciário se dá pelo Chefe do Executivo (outra aberração constitucional nossa).
Pois bem. Assim como Collor, também Dilma-Temer (essa figura mítica grega tupiniquim de duas cabeças) chegou à vitória pelas regrinhas regulares do jogo de tabuleiro chamado Democracia Brasileira. Agora, também com atendimento formal dessas mesmas regrinhas mais políticas que jurídicas (que não mudaram desde o Collor), os dados lançados atuam contra Dilma, tal qual fizeram com o caçador de marajás.
Assume quem? Temer. Votado por todo aquele que votou em Dilma, afinal, dizem que presidente e vice são eleitos no mesmíssimo voto, e que podem ser adversários históricos (regras do jogo atual).
Ora, pela lógica, não deveria haver histeria coletiva com a saída de Dilma, se o vice é quem assume e se esse vice também foi escolhido no mesmíssimo voto do Presidente eleito. Se há histeria, então é porque se admite a contragosto pacto com o demônio desde o início. E algo não vai errado nas regras de um jogo assim? Votei no Corinthians, com o Palmeiras como vice?
O mais interessante da falência desse jogo é que todos que apoiam Dilma rejeitam o PMDB, e todos que rejeitam Dilma, também rejeitam o PMDB. No entanto, ironicamente, seremos agora governados justamente pelo grande rejeitado. Tudo dentro da forma da Constituição, simultaneamente contra e à favor da vontade da população.
E por que se quer o impeachment? Porque o país está o caos. Porque a corrupção transborda (Mariana-MG manda lembranças). Porque não há uma obra não super faturada no país. Porque as promessas de campanha não foram cumpridas. Porque há aumento crescente de impostos e preços de mercado. Porque o povo agoniza diante da calamidade econômica enquanto os salários e regalias de Estado aumentam. Contrato social mais rasgado do que nunca.
Nesse caos, com Temer Presidente (ou Presidento), passaremos a temer quem será o novo vice, rezando para que o novo presidente não viaje.
Que jogo de tabuleiro sensacional, não é mesmo?
Outra aberração é o sistema proporcional, que coloca no Legislativo inúmeros candidatos que foram pouquíssimo votados, "puxados" pelo candidato mais votado do mesmo partido, como ocorreu, por exemplo, com o Tiririca, que elegeu tantos outros.
O circo manicomial da votação do impeachment, por sua vez, grita a falência do modelo atual e coloca Dilmistas, Lulistas, Aecistas, FHCistas, Marinistas, Campistas, Jorgistas, Genrristas, Cristovanistas, e nulistas, todos unidos ao menos na vergonha alheia do baixíssimo nível de nossos parlamentares e de nosso sistema eleitoral circense.
Soluções? O voto de rejeição, que é, na prática, o que todos já fazemos na psicologia do voto: votar contra, e não a favor. Já que já fazemos isso inevitavelmente, então todo eleitor passaria a votar duas escolhas simultâneas: 1) o candidato desejado; e 2) o voto de rejeição (quem ele não quer de modo algum). Os dois candidatos mais rejeitados (ou todos rejeitados acima de certa porcentagem) estariam automaticamente excluídos do pleito. O segundo turno teria os dois candidatos mais votados não excluídos por rejeição.
Com isso, um mandato público jamais seria entregue antidemocraticamente a candidato rejeitado, e PT, PSDB e PMDB não mais venceriam eleições, dando espaço a novas propostas, que só se manteriam se provassem a que vieram. Diante da falência absoluta do jogo, invoca-se todas as mentes do país por novas soluções.
LEITURA COMPLEMENTAR:

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/04/1765870-o-poder-do-dinheiro-e-a-maior-ameaca-a-democracia-diz-fukuyama.shtml

sábado, 30 de janeiro de 2016

VOCÊ É A FAVOR OU CONTRA?

Fernando Furlanetto Galuppo, 30.01.2016.

Você é a favor ou contra as esculturas italianas cobertas para não ofenderem o presidente do Irã?
Você é a favor ou contra a proibição da volta da publicação oficial do livro Mein Kampf, do Hitler?
Você é a favor ou contra o Impeachment?
Você é a favor ou contra a Rainha da Inglaterra?
Você é a favor ou contra gordo usando pochete?
Você é a favor ou contra a boca da Angelina Jolie?
Você é a favor ou contra o açaí com granola?
Você é a favor ou contra o novo design do vaso sanitário para que o ser humano defeque de maneira mais anatômica?
Você é a favor ou contra a impressão 3D?
Você é a favor ou contra o "Ordem e Progresso", escrito na bandeira do Brasil?
Você é a favor ou contra o sexo feito por prazer e não somente por reprodução?
Você é a favor ou contra a camisinha?
Você é a favor ou contra o Google Glass?
Você é a favor ou contra homem usando camisa rosa?
Você é a favor ou contra somente mulheres poderem ir juntas ao banheiro e homens não?
Você é a favor ou contra o tabaco?
Você é a favor ou contra o BBB?
Você é a favor ou contra o Louro José, da Ana Maria Braga?
Você é a favor ou contra o "boicote ao Oscar sem negros"?
Você é a favor ou contra a liberdade econômica de as operadoras de celular interromperem completamente a conexão de internet após o uso de uma certa quota de dados?
Você é a favor ou contra o teorema de Pitágoras?
Você é a favor ou contra a pipoca de microondas?
Você é a favor ou contra o Papa Francisco?
Você é a favor ou contra o emagrecimento da Adele?
Você é a favor ou contra a volta do Fusca?
Você é a favor ou contra o carnaval?
Você é a favor ou contra o hambúrguer vegan?
Você é a favor ou contra o sistema financeiro internacional?
Você é a favor ou contra a lei da gravidade?
Você é a favor ou contra a volta dos trens nos países subdesenvolvidos?
Você é a favor ou contra o sertanejo universitário?
Você é a favor ou contra o zodíaco?
Você é a favor ou contra enchimento nos soutiens?
Você é a favor ou contra o Islã?
Você é a favor ou contra o Charlie Hebdo?
Você é a favor ou contra o casamento?
Você é a favor ou contra as roupas com ar condicionado inventadas pelos japoneses?
Você é a favor ou contra a nudez?
Você é a favor ou contra o Supremo Tribunal Federal brasileiro?
Você é a favor ou contra a chave de fenda?
Você é a favor ou contra o alicate?
Você é a favor ou contra o Aedes Aegypti?
Você é a favor ou contra manjericão no molho de tomate?
Você é a favor ou contra a hipocrisia?
Você é a favor ou contra a fonoaudiologia do Cazuza?
Você é a favor ou contra a justiça com as próprias mãos?
Você é a favor ou contra as abelhas?
Você é a favor ou contra a Rainha das Abelhas?
Você é a favor ou contra a Escolinha do Professor Raimundo?
Você é a favor ou contra a abolição do representante político pelas novas tecnologias?
Você é a favor ou contra o heliocentrismo?
Você é a favor ou contra a crase?
Você é a favor ou contra o cocô de plástico de brinquedo?
Você é a favor ou contra?


LEITURA COMPLEMENTAR:
1) Preconceito implícito:
http://www2.uol.com.br/sciam/artigos/preconceito_implicito.html

2) A Engenharia Reversa da Argumentação:
https://direitosfundamentais.net/2013/11/18/a-engenharia-reversa-da-argumentacao/





sábado, 26 de dezembro de 2015

REX

Fernando Furlanetto Galuppo, Dez/2015.

Uma senhora certa vez decidiu ter um gato.
Não que tivesse decidido de caso pensado, mas um gato filhote havia sido visto brincando em suas roseiras, e, com o passar das semanas, o gato foi ficando, ficando, até definitivamente se tornar um membro da família.
Como sempre tivera cachorros, e jamais gatos, apesar de o tratar com muito carinho, a velha o criou sem distinções em relação aos vira-latas da casa, sobretudo para não criar privilégios, imunidades, foro privilegiado, nem despertar ciúme ou indisposições.
Era um gato-cachorro, enfim. Até coleira com nome e número de telefone para contato o novato ganhara. Se os cães a tinham? O bichano também merecia, por que não?
Coleira, trela, casinha, tigela de água, tigela de ração, ração canina, brinquedos caninos. Até mesmo o nome escolhido pro gato fora um nome canino, isto é, comum de se ver somente em cachorros, ao menos naquela sociedade em questão.
Na infância e adolescência do gato tudo foi festa, e era uma farra só com os cães irmãos. Não era difícil, afinal, agir como cão seguindo os demais, mas o tempo passou, o filhote se foi e o adulto chegou. E foi aí que os problemas começaram.
Jean Cocteau já dizia que, se prefere os gatos aos cães, é porque não existem gatos policiais. Possível expressão da independência intrínseca de qualquer gato, incompatível com a necessária obediência hierárquica da carreira policial, inata aos cães.
Em outras palavras, gatos são formados em Filosofia, com mestrado em Lógica Formal e doutorado em política não-simbiótica à luz de Heidegger (com PhD em aberto, de preferência no estrangeiro).
O que a mulher não sabia, ou não queria saber, era que gatos são de se domesticar até certo ponto, e se não se lhes domestica mais, não é por falta de amor destes para com seus donos, e sim pelo estrago gradual que os diálogos de Platão catalizam em suas mentes desde o vestibular.
O primeiro e mais grave problema entre a prestativa velhinha e seu “cachorro rebelde” fora a insurreição do felino ao uso da trela.
Até coleira vá lá que, se ensinados desde cedo, alguns gatos a usam com pouco chiar, mas trela a conduzir onde um gato deva ou não caminhar o tempo todo é uma coisa que quase nunca se viu no mundo felino, dos gatos aos tigres, dos contos de fadas ao Discovery Channel, e isso foi incomodando dia após dia o instinto daquele animal até não suportar mais e não mais se deixar aproximar quando via o objeto. Quando acontecia? Fugia e ninguém o encontrava por horas. Se lhe forçassem na força física? Era briga na certa.
Aquilo magoou profundamente a prestativa mulher. Todo carinho, todo conforto, toda dedicação, todos os braços abertos e todas as boas vindas recebidas na infância, toda a igualdade com os cães, todas as cortesanias, todos os ossinhos de couro e todos os leites quentinhos, tudo isso para tamanha ingratidão. Tudo o que aquela anciã queria era somente o bem do gatinho, e, obviamente, sua gratidão.
Já a partir da primeira fuga, iniciou-se verdadeira queda de braço para mostrar ao animal quem mandava por ali, e que se tanto recebia da casa, o mínimo era que devesse sua gratidão e se comportasse como os demais.
Mas não tinha jeito, gatos amam mas não usam trela; gatos amam, mas se ausentam para suas leituras aristotélicas. E o não uso daquela trela somado às ausências daquele gato perturbavam por completo a ordem e a disciplina daquela casa.
Agravante para a deterioração do relacionamento foi a obediência cega e risonha dos vira-latas à matriarca, quem infelizmente confundia tal obediência necessariamente com lealdade e gratidão.
Tivesse tido somente gatos, talvez a decepção da mulher fosse nula ou inversa, na medida em que gato seria comparado com gato, mas fatal era se comparar gato a cachorro e inconscientemente eleger como variável de mérito: a submissão.
A submissão como variável de mérito para amizade ou afeto, aliás, é corriqueiro equívoco lógico que engana até mesmo os mais cautos, por vezes eliminando verdadeiros amigos e por vezes aproximando secretos inimigos, vez que os aduladores se assemelham aos amigos como os lobos aos cães.
De qualquer forma, a implicância com o felino havia nascido e se consolidado. Para a mulher, os vira-latas eram exemplos na casa e ponto final. Funcionários do mês sempre. Cagassem onde fosse, quebrassem o vaso que fosse, mordessem o pé de mesa que fosse, o perdão lhes era irrestrito, pois deixavam colocar sobre si a trela colorida, pois vinham correndo no menor assobio, pois riam mesmo que não tivessem entendido a piada.
Já o gato, outrora fofinho, era hoje para ela um chato. Era hoje para ela um gato estressado que não se deixava colocar o cordão no pescoço; que não ria de suas piadas como os cães o faziam. Custava ceder? Um gato ingrato, enfim.
Diante desse para os cães tudo e para os gatos a lei, defecar dentro de casa era então crime inafiançável para felinos, e, diferentemente dos caninos, isso o gato já fazia bem longe, fora de casa, para não dar a menor margem para discussões.
Vasos? De nenhum dos vasos da casa o gato se aproximava mais, pois se por um infortúnio quebrasse algum, provável seria que a velha não lhe teria a mesma clemência tida com a outra espécie, e a carrocinha era um tabu entre os animais domésticos. Se bobeasse, ainda poderia receber a culpa por algum vaso que sequer quebrou.
Amor ainda havia, pois memória sempre há e haverá, e amor não se esgota, nem por orgulho, assim tão facilmente, mas crescia a distância e o silêncio. Se o gato miava com suavidade, aquilo irritava a mulher bem mais que um estrondoso latido, e como ação e reação geram efeitos recursivos progressivos, isso fez com que o gato, já quieto, passasse a introspectar suas palavras ainda mais e se tornar cada vez menos simpático, pelo menos aos olhos daquela casa.
Antes de sair de casa quase de vez e voltar apenas em feriados especiais, o gato ainda ousou fingir se alegrar na novela para ver a mulher mudar para o futebol (que era precisamente o que o gato queria). Quando sua técnica pareceu ter sido percebida, para não assistir à novela, o gato chegou a fingir torcer profundamente para um time específico somente para ver a mulher manter o canal e torcer pelo outro. Inúmeros estratagemas haviam sido experimentados, mas o gato sabia serem meros paliativos e não a verdadeira solução para a situação.
Com a chegada das eleições, do ponto cego da prateleira mais alta da estante de livros, o gato chegou a ouvir a mulher lhe difamar pelas costas tão somente por votar nulo, enquanto que os cães, que surpreendentemente votaram no partido contrário ao da mulher, apenas ganharam meio biscoito ao invés de um como punição, sem difamações.
Com o passar dos meses, para tentar analisar se a perseguição era pessoal ou se era mesmo ele um indivíduo execrável que não servia para nada, o gato danado simulou direitismos para ver a mulher em seguida bradar esquerdismos; simulou esquerdismos, para ver a mulher novamente reagir no inverso. Atuou ciência para ouvir religião e desenvolveu religião, quando queria ouvir ciência. Miou samba para que se ligasse o sertanejo, e desdenhou o cobertor quando não o queria ausente.
A trela continuava a ser tentada, e a resposta do gato continuava a de sempre: negativa, posto que insuportável ser puxado pelo pescoço, sabe-se lá por qual motivo da natureza.
Os cães, por sua vez, percebiam o que se passava, e alguns deles inclusive se compadeciam com a dor do gato na situação, mas pouco ou nada faziam, vez que, neste caso concreto, a lealdade vertical prevalecia sobre a horizontal.
Ao completar seu segundo ano de vida na casa das roseiras, e ao ver que um cocô de cachorro no tapete persa da sala incomodava a anciã pouco mais que sua voz felina eventualmente pronunciando alguma unanimidade, o gato percebeu que era melhor ser o gato de botas que o gato de Schrodinger, e então se foi em direção à Atenas para nunca mais voltar, e isto porque percebeu que a dificuldade humana de gostar de gatos está diretamente ligada à dificílima capacidade de amar sem dominar.

LEITURA COMPLEMENTAR:
1) Preconceito implícito:
http://www2.uol.com.br/sciam/artigos/preconceito_implicito.html






terça-feira, 17 de março de 2015

O PÊNDULO

Fernando Furlanetto Galuppo, 18/03/15.

Mario Alberto é de direita. Filho de Heitor, também de direita. Inevitável.
Juca, no entanto, é de esquerda, filho de Almir, este paradoxalmente de direita, mas em se tratando de Almir e de Juca, também inevitável.
Maria Clara, de esquerda. Inês, de direita.
Os gêmeos Luis Felipe e Ana Andréia, respectivamente, de direita e de esquerda.
Curioso, sim. Difícil saber o processo por meio do qual as pessoas se bifurcam. A lógica é escusa.
João Augusto, por exemplo, que é de esquerda, lera um livro recomendado por Juca. Gostara da obra antes mesmo da leitura, porque fora Juca quem indicara.
Pelito, no entanto, que é de direita, só lia o jornal de que era assinante: um veículo sanguinário anti-esquerda. Se lhe recomendassem matéria de periódico rival, não lia nem sob tortura.
Marcos era de direita.
Eugênia, de esquerda.
Valter, de extrema direita.
Nádia, tão de esquerda que era, quase que não virava seu pescoço para seu lado direito.
Enfim, eram muitos os bifurcados, mas em um dado dia, algo diferente aconteceu.
Armando lera um texto nas redes sociais. Um texto diferente, intrigante, muitíssimo bem escrito, ideias lúcidas e precisas.
"- De certo um texto de esquerda!", pensara.
Animado, Armando curtira e compartilhara o texto para que fosse lido por muitos. Para que agradasse alguns vários, e para que irritasse a outros tantos, mas lido por muitos.
No entanto, imediatamente após a leitura, Armando percebera que dois queridos desafetos políticos seus, isto é, uma prima e um amigo de infância, ambos de direita, haviam, também, curtido e compartilhado o textículo.
De pronto, Armando percebera seu equívoco. Que absurdo! O texto - pasmem - era de direita! Evergonhado, imediatamente tratou de descurtir e deletar o compartilhamento do texto na torcida de que poucos tivessem visto sua gafe de ter estado circunstancialmente com os direitistas.
Por ironia do destino, porém, nem dez minutos depois, cinco queridos afetos políticos esquerdistas seus também haviam curtido o artigo em suas respectivas páginas.
Ora essa! Mas é claro, agora tudo fazia sentido! O equívoco não fora um equívoco! Afinal, o texto era mesmo bom, impossível que fosse de direita! O texto era mesmo de esquerda!
Então, Armando tornou a curtí-lo e compartilhá-lo, muito embora inquieto com o fato de que o escrito havia agradado também aos mentecaptos.
Gradualmente, as curtidas antagônicas se sucederam por horas.
Aos poucos, direitistas e esquerdistas se empalavam nas redes sociais reivindicando a ideologia do texto demoníaco que agradara a todos.
Ao menos momentaneamente, a outrofobia havia feito um brinde ególatra e irônico a si mesma.
Há quem diga que o mal racionalizante da humanidade seja a patologia indelével da incapacidade de leitura da palavra e da ideia, com a saliva só degustando a fonte. Não à toa Heidegger advertiu Hannah Arendt de que pensar seria uma atividade solitária.


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LEITURA COMPLEMENTAR:
1) Como a psicologia explica a maneira como você vota:
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2015/05/150506_vert_fut_psicologia_voto_ml?ocid=socialflow_facebook

2) Estereótipos raciais impactam comunicação:
http://www.diariodasaude.com.br/news.php?article=estereotipos-raciais-impactam-comunicacao

3) Por que as pessoas inteligentes fazem e concordam com coisas idiotas:
http://hypescience.com/por-que-as-pessoas-inteligentes-fazem-e-concordam-com-coisas-idiotas/

4) A inveja e a síndrome de Sólomon:
http://brasil.elpais.com/brasil/2013/05/17/eps/1368793042_628150.html

5) Philosophy in our schools a necessity, not a luxury:
http://www.irishtimes.com/news/social-affairs/religion-and-beliefs/philosophy-in-our-schools-a-necessity-not-a-luxury-1.1970408


6) Preconceito implícito:
http://www2.uol.com.br/sciam/artigos/preconceito_implicito.html

7) A Engenharia Reversa da Argumentação:
https://direitosfundamentais.net/2013/11/18/a-engenharia-reversa-da-argumentacao/

8) A vantagem de ser um extremista:




sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

JIU JITSU VS BOXE

Fernando Furlanetto Galuppo
(English version at the end).

O Jiu Jitsu acha que o adversário pode ser bom, mas que no calor da emoção está mau, e que é de estratégia múltipla tentar imobilizá-lo sem feri-lo, só ferindo se não se acalmar na derrota. O Boxe acredita que o adversário está mau no calor da emoção e que isso basta, sendo preciso nocauteá-lo rápido antes que ele o faça primeiro.

O Jiu Jitsu acusa o Boxe de fazer as coisas sem refletir. O Boxe acusa o Jiu Jitsu de filosofar demais. (Piada de lutador de Jiu Jitsu: boxeador de meia idade já é um idoso precoce que perdeu neurônios justamente porque não refletiu sobre o fato de que toda pancada tem um preço. Piada de boxeador: lutador de Jiu Jitsu adora ficar agarrando outro homem no chão e tem as orelhas raladas).

Em uma briga de rua, o que faz o Boxe? Esquiva-se de um jab, finta um uppercut e crava um cruzado de direita no queixo do adversário. Em seguida, um gancho nocauteador. Resolve agora? Sim, diz o Boxe. Mas o bom do poder é não usá-lo, pois quem bate esquece, e quem apanha lembra, diz o Jiu Jitsu. Mas o Boxe não está preocupado com o depois. "Depois" é de Jiu Jitsu. "Agora" é de Boxe.

Em uma briga de rua, o que faz o Jiu Jitsu?  Inicialmente, a "fase Judô": 1) desequilíbrio; 2) projeção; e 3) queda.  Imediatamente após, a "fase Jiu Jitsu": técnicas de solo, com: 1) chaves; 2) estrangulamentos; 3) torções (dentre outros), até que o adversário voluntariamente desista ou apague ("apagar", resumidamente, é perder a consciência devido a um estrangulamento). Se desistir, diferentemente do Boxe, no Jiu Jitsu o adversário sai completamente ileso. Se não desistir, daí sim, sai fraturado ou desmaiado. Resolve agora? Sim, diz o Jiu Jitsu, e também depois, pois quem é vencido "apanhando suave", "lembra menos", e vencer com não-violência é vitória mais certa, além de fazer um mundo melhor. (Mas "existir é ser lembrado", provoca o Boxe).

Jiu Jitsu e Boxe são artes marciais, isto é, artes de guerra, filosofias do corpo e da mente. O Jiu Jitsu foi inventado por monges budistas na Índia, levado à China, aprimorado no Japão, e veio parar no Brasil, onde agora conquista o mundo. Jiu Jitsu é a arte de imobilizar, e significa "arte suave". O Boxe foi inventado pelos gregos, levado à Roma, popularizado pelos ingleses, e também conquistou o mundo. Boxe significa "pugilismo", a arte de atacar com os punhos (arte não suave).

Numa mesa de bar, na beira da praia, o Boxe e o Jiu Jitsu argumentam entre si:
"- Faça musculação, fique forte, pule cordas, soque rápido, caminhe rápido, esquive-se rápido! A rapidez nos torna invencíveis!", diz o Boxe.
"- Faça técnicas, fique técnico, atente-se aos mínimos detalhes, aprimore-os! Ao focar na técnica, seu corpo e mente ficarão rápidos, flexíveis, estratégicos, econômicos, e dispensarão força, pois um fraco monge budista em jejum poderá facilmente vencer um enorme bárbaro usando a força dele contra si mesmo!", responde o Jiu Jitsu.
"- Balela! Força e velocidade são tudo, e é exatamente por isso que faço musculação e condicionamento com socos repetitivos!", rebate o Boxe.
"- Neurótico.", diz o Jiu Jitsu.
"- Nerd!", responde o Boxe.

O Boxe vai à academia porque é pragmático, focado em resultados, e quer o abdome e os bíceps rijos. O Jiu Jitsu vai ao Yoga, porque o processo mental é tão ou mais importante que o corpo físico, já que "o faixa preta é o faixa branca que nunca parou". ("Processo" é de Jiu Jitsu; "foco em resultados", de Boxe).

Dieta para ganho de massa muscular com suplementos alimentares industrializados de última geração: Mike Tyson/Boxe. Dieta vegetariana com açaí, granola, frutas, salada, sucos, castanhas, raízes e grãos: Carlos Gracie/Jiu Jitsu.

Na brincadeira infanto-juvenil "Pedra, Papel, Tesoura", Boxe é pedra, Jiu Jitsu é papel. Faz sentido. Em regra, o papel ganha da pedra porque a envolve, mas se a pedra for flexível e se se afiar moldando-se em tesoura, a única saída é o Jiu Jitsu saber dançar como tesoura também. A conclusão é que, nas artes marciais, algumas vezes é preciso não ter um jogo único, algumas vezes é preciso ser um camaleão entre esses três objetos.

Fogo: Boxe. Água: Jiu Jitsu. Mas tudo depende da perspectiva, pois Jiu Jitsu pode ser Boxe dentro de uma luta entre dois lutadores de Jiu Jitsu, e Boxe pode ser Jiu Jitsu, dentro de uma luta entre dois lutadores de Boxe. Ao lado de uma pedra de gelo, água é Jiu Jitsu. Ao lado de uma nuvem de vapor, água é Boxe.

Cachorro: Boxe. Gato: Jiu Jitsu.
O leão, o urso e o lobo são boxeadores profissionais.
A águia, a serpente e o golfinho, faixas pretas de Jiu Jitsu.

Marimbondo certamente é Boxe, já o Louva-Deus, Jiu Jitsu (além de também ser um estilo de Kung Fu).
Pra quem não sabe, o Louva-Deus caça e mata o beija-flor, apesar do tamanho bem maior e da velocidade absurda desta ave.

Cachorro, gato, leão, urso, lobo, águia, serpente, golfinho, marimbondo, Louva-Deus, e beija-flor! Quem vence?
O mais preparado.

Cores: Boxe. Branco: Jiu Jitsu.
Xadrez: Jiu Jitsu. Tetris: Boxe.


Mãos, articulações e pescoço: Jiu Jitsu. Bíceps, abdome e panturrilha: Boxe.
No sexo: duas ou três posições é de Boxe. O Kama Sutra, de Jiu Jitsu.

Dojo? Jiu Jitsu. Ringue? Boxe.
(O octógono? Uma pretensa UNESCO com fins lucrativos).


Quadrados, retas e pontos: Boxe.
Círculos, triângulos e pontos: Jiu Jitsu.


Ao que se vê, as metáforas são infinitas, mas a grande verdade é que toda arte marcial contém dentro de si um tanto de Boxe e um tanto de Jiu Jitsu. Inclusive, Jiu Jitsu contém Boxe, e Boxe contém Jiu Jitsu. Mas o que a história sempre mostrou é que, independentemente da arte marcial, venceu mesmo aquele que reconheceu a igual dignidade de todas as artes e indivíduos. Venceu mesmo aquele que atingiu a consciência de que uma faixa preta é nada mais que uma nova faixa branca. Venceu mesmo aquele que quebrou a resistência do inimigo sem lutar.


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JIU JITSU VS BOXE 
Fernando Furlanetto Galuppo

Jiu Jitsu thinks that the opponent can be good, but in the heat of the emotion is bad, and it's multi strategical to try to immobilize him without hurting him, hurting only if he does not calm down after the defeat. Boxing believes that the opponent is bad in the heat of the emotion and this is enough, being necessary to knock him down quickly before he does it first.

Jiu Jitsu acuses Boxing of doing things without reflection. Boxing acuses Jiu Jitsu of philosophizing too much. (Jiu Jitsu fighter's joke: a middle age's boxer is already a premature elderly who lost neurons precisely for not reflecting about the fact that every strocke has a price. Boxer's joke: Jiu Jitsu fighter loves to grab another man at the floor and has injured ears).

In a street fight, what does the Boxing do? It dodges from a jab, jinks an uppercut and sticks a right cross in the opponent's chin. Next, a knockouting hook. Resolved now? Yes, says Boxing. But the good part of the power is not to use it, cause who beats, forget, and who gets beaten, remembers, says Jiu Jitsu. But Boxing is not worried about the after. "After" is Jiu Jitsu. "Now" is Boxing.

In a street fight, what does the Jiu Jitsu do? Initially, the "Judo phase": 1) imbalance; 2) projection; and 3) fallings. Right after, the "Jiu Jitsu phase": ground techniques with: 1) locks; 2) chokes; 3) tortions (among others), till the opponent voluntarily quit or sleep ("to sleep" in Jiu Jitsu, in short, means to loose the conscience as a consequence of a choke). If you quit, differently from Boxing, in Jiu Jitsu you end totally unharmed. If you don't quit, then, yes, you can end broken or unconscious. Resolved now? Yes, says Jiu Jitsu, and even after, cause who is defeated getting beaten "softly", "remembers less", and to win with no violence is the most certain victory, among making a better world. (But "to exist it to be remembered", teases Boxing).

Jiu Jitsu and Boxing are martial arts, it means, arts of war, philosophies of the body and mind. Jiu Jitsu was created by budist monks in India, took to China, developed in Japan, and arrived in Brazil, where now conquests the world. Jiu Jitsu is the art of imobilization, and it means "soft art". Boxing was created by the Greeks, took to Rome, popularized by the British, and also conquested the world. Boxing means "pugilism", the art of atacking with punches (a non soft art).

At a bar table, at the beach, Boxing and Jiu Jitsu argue between themselves:
"- Do bodybuilding, be strong, practice rope jumping, punch fast, walk fast, dodge fast! The speed makes us invencibles!", says Boxing.
"- Practice techniques, be technical, pay atention on the minimum details, improve them! Focusing on the technique, your body and mind will be fast, flexible, estrategical, economical, and will dismiss strength, cause a weak budist monk fasting will can easily win an enormous barbarian using the opponents strenght against himself!", answers the Jiu Jitsu. 
"- Bullshit! Strenght and velocity are everything, and it is exactly for this reason that I do fitness and conditioning with repetitive punches!", rebuts Boxing.
"- Neurotical.", says Jiu Jitsu.
"- Nerd!", answers Boxing.

Boxing goes to gym because he is practical, focused on results, and wants the abdomem and the biceps wiry, hard. Jiu Jitsu goes to Yoga, because the mental process is so or even more important than the phisical body, once "the black belt is the white belt who never stoped". ("Process" is Jiu Jitsu; "focus on results" is Boxing). 

Diets for muscular gain with the last generation industrialized nutritional suplements: Mike Tyson/Boxing. Vegetarian diet with açaí, granola, fruits, salads, juices, nuts, roots and grains: Carlos Gracie/Jiu Jitsu.

In that childhood play "Rock, Paper and Scisor", Boxing is the rock, Jiu Jitsu is the paper. Makes sense. As a rule, paper beats rock because envolves it, but if the rock was flexible enough to sharp itself into a scisor form, the only way is the Jiu Jitsu knows to dance as scisor as well. The conclusion is that, in martial arts, sometimes we need to not have an unique game, sometimes we need to be a camaleon between these three objects.

Fire: Boxing. Water: Jiu Jitsu. But all depends on the perspective, cause Jiu Jitsu can be Boxing inside a fight between two Jiu Jitsu fighters, and Boxing can be Jiu Jitsu, inside a fight between two Boxing fighters. At the side of an ice rock, water is Jiu Jitsu. At the side of a vapor cloud, water is Boxing.

Dog: Boxing. Cat: Jiu Jitsu.
The lion, the bear and the wolf are professional boxers.
The eagle, the snake and the dolphin, Jiu Jitsu black belts.

Wasp is certainly Boxing, the praying mantis, on the other hand, Jiu Jitsu (besides being also a Kung Fu style). For those who don't know, the praying mantis hunts and kills the humming bird, despite of the much bigger size and much higher speed of this bird.

Dog, cat, lion, bear, wolf, eagle, snake, dolphin, wasp, praying mantis and humming bird! Who wins? The better prepared.

Colours: Boxing. White: Jiu Jitsu.
Chess: Jiu Jitsu. Tetris: Boxing.
Hands, articulations and neck: Jiu Jitsu. Biceps, abdomem and calf: Boxing
On sex: two or three positions is Boxing. The Kama Sutra, Jiu Jitsu.

Dojo? Jiu Jitsu. The ring? Boxing.
(The octogon? A pretentious UNESCO with profit proposes.)

Squares, lines and dots: Boxing.
Circles, triangles and dots: Jiu Jitsu.

As we can see, the metaphores, are infinite, but the big truth is that every martial art contains in itself an amount of Boxing and an amount of Jiu Jitsu. Including, Jiu Jitsu contains Boxing, and Boxing contains Jiu Jitsu. But what the history always showed us is that, independently of the martial art, really won who recognized the equal dignity of all the martial arts and individuals. Really won who reached the conscience that a black belt is nothing more than a new white belt. Really won who has broken the resistance of the enemy without fighting.

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VÍDEOS COMPLEMENTARES QUE APRESENTAM O JIU JITSU:
COMPLEMENTARY VIDEOS WHICH PRESENTS THE JIU JITSU:























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MAIS ALGUNS LINKS: 
MORE LINKS:

1) https://www.facebook.com/cuneytsu1983/videos/469306369816215/

2) https://www.facebook.com/video.php?v=700942699976910

3) https://www.facebook.com/video.php?v=376361575818035

4) https://www.facebook.com/video.php?v=998342946872722

5) https://www.facebook.com/video.php?v=1524750071077493

6) https://www.facebook.com/112538739077890/videos/210636455934784

7) https://www.facebook.com/masegadilha/videos/1751075118454323

8) https://www.facebook.com/1523611474524686/videos/1729190073966824/

9) http://www.graciemag.com/pt/2016/02/especialista-da-dicas-para-voce-respirar-corretamente-nos-treinos-de-jiu-jitsu-e-turbinar-os-resultados-dos-exercicios/

10) https://www.facebook.com/carlosalberto.liberi/videos/1072814852806953/


segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O JORNALISMO CIENTÍFICO MARROM

Fernando Furlanetto Galuppo, 28/12/2014.

Imprensa marrom (do inglês "the yellow jornalism") é uma expressão linguística pejorativa utilizada em referência à mídia sensacionalista, isto é, à mídia que faz tudo pela audiência por meio do exagero, da seleção manipulativa dos fatos, e de irrestrito descompromisso com a verdade.

Na era das mídias sociais, tudo o que a imprensa marrom quer é "o click" em sentido estrito, ou seja, com ou sem a satisfação do leitor ao final da leitura. "Clicada" a notícia, contabilizada está a visita à página da internet para a devida prestação de contas aos patrocinadores. Digitalmente, é o que basta.

Até aí, o "barraco marrom" sempre existiu desde a era pré-digital. "Tudo pela audiência" desde os pequenos panfletos das primeiras publicações impressas. "Falem bem ou falem mal, mas falem de mim!"

Populariza-se, entretanto, uma subespécie de imprensa marrom: a científica. O sensacionalismo do "apelo ao contra-senso científico", já que percebido pelo jornalismo amarelo como "um click irresistível".

Afirmar que "vinho é mais saudável que exercícios físicos" (http://exame.abril.com.br/estilo-de-vida/noticias/vinho-faz-tao-bem-quanto-exercicios-fisicos-diz-estudo) ou que "fazer dieta é tudo o que alguém precisa para engordar ainda mais" (http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2014/12/1565364-fazer-dieta-so-serve-para-engordar-mais-ainda-diz-nutricionista-da-usp.shtml) são disparates científicos tão grandes (para o desejo ou para o medo dos leitores) que, precisamente pelo extremo oposto lógico, convencem até mesmo os mais céticos a tirarem suas dúvidas atormentadoras acerca da afirmada novidade: por meio do click.

Tudo o que todos querem, afinal, é comer e emagrecer ao invés de engordar; beber vinho e ficar saudável ao invés de fazer esporte (é o que querem também os produtores de vinho, mas apenas por coincidência, é claro).
Além do mais, há por um acaso algo melhor do que finalmente ostentar para aquele amigo esportista, que certos estamos nós, gordos e diabéticos, em curtir a vida adoidado com excessos, e ele não?

Fossem verdades cientificamente demonstradas dentro do amplo empirismo metodológico científico, este tipo de jornalismo nada mais estaria fazendo que sua estrita função: divulgação científica séria e objetiva. Ocorre que, com frequência, a fonte científica desse tipo de notícia traz expressões do tipo: "..., diz estudo", ou "...diz pesquisador". Expressões que, de tão genéricas e engravatadas, nem mentem nem dizem a verdade, justamente por sempre haver "pesquisador" (inclusive pertencendo a quadros de instituições sérias) dizendo "tudo para todas as direções".

Fica a pergunta: o que é "um estudo", afinal?
Este meu texto que o leitor lê nesse exato instante poderia ser considerado "um estudo"? E "pesquisador"? Acaso a legislação define o que seja? Poderia eu, com esse texto, ser considerado um "pesquisador", já que pesquisei minimamente esse tema e cheguei à minha individual conclusão?

Qualquer um é "pesquisador" em sentido amplo. No caso, não raro notícias publicam "estudos" feitos por bacharéis de instituições duvidosas, sem qualquer especialização no campo de pesquisa do estudo, daí o problema.

Costumo brincar dizendo que "estudos" são encomendados por setores interessados, "diz estudo". E que "estudos" encomendados por setores interessados irritam outros setores interessados, que encomendam novos estudos, diz estudo.

Brincadeiras à parte, não se pode também, no inverso, tolher a liberdade de expressão de qualquer tipo de "pesquisador", mesmo leigo, acerca de qualquer tipo de ideia.

Qual será, então, em síntese, a linha fronteiriça entre a liberdade de expressão e a responsabilidade jornalístico-científica de se publicar afirmações estapafúrdias em mídias que mais deveriam ser classificadas como mídias de humor ao invés de ciência?




LEITURA COMPLEMENTAR:


1) Cientista que nega aquecimento global recebeu US$ 1,2 milhão de empresa de combustíveis fósseis:
http://www.istoe.com.br/reportagens/405888_CIENTISTA+QUE+NEGA+AQUECIMENTO+GLOBAL+RECEBEU+US+1+2+MILHAO+DE+EMPRESA+DE+COMBUTIVEIS+FOSSEIS

2) Artigo: "Estudo falso é aceito para publicação em mais de 150 revistas":
http://blogs.estadao.com.br/herton-escobar/estudo-falso-e-aceito-para-publicacao-em-mais-de-150-revistas/?fb_action_ids=744867722206176

3) USP se une à Monsanto: 
http://www.jornaldocampus.usp.br/index.php/2008/10/usp-se-une-a-monsanto

4) Como procurar informações confiáveis sobre saúde na internet:
http://revistagalileu.globo.com/blogs/segunda-opiniao/noticia/2014/05/como-procurar-informacoes-confiaveis-sobre-saude-na-internet.html

5) Por que estudos científicos chegam a conclusões diferentes?
http://www.diariodasaude.com.br/news.php?article=estudos-cientificos-chegam-conclusoes-diferentes

6) É terrivelmente fácil enganar milhões de pessoas com pesquisas científicas fajutas:
http://gizmodo.uol.com.br/pesquisas-fajutas-midia/

7) 
Em entrevista, o "cientista" Patrick Moore afirmou que um determinado agrotóxico largamente utilizado, especialmente no Brasil (herbicida glifosato), não faria qualquer mal à saúde. Em sua argumentação, afirmou que poderia beber um litro do produto sem qualquer problema. Quando o jornalista falou que tinha um pouco do produto para a demonstração, a resposta foi negativa, e ele próprio encerrou a entrevista: 
https://www.youtube.com/watch?v=XGJYmOySbAI

8) À venda: seu nome em uma prestigiada publicação científica:
http://www2.uol.com.br/sciam/artigos/a_venda_seu_nome_em_uma_prestigiada_publicacao_cientifica.html

9) Deutsche Welle - Indústria do açúcar influenciou pesquisa científica, aponta estudo:
http://www.dw.com/pt/ind%C3%BAstria-do-a%C3%A7%C3%BAcar-influenciou-pesquisa-cient%C3%ADfica-aponta-estudo/a-19548637

10) Resenha da obra "Discurso sobre o Método", de Descartes:
http://super.abril.com.br/cultura/penso-logo-existo

11) A Engenharia Reversa da Argumentação:
https://direitosfundamentais.net/2013/11/18/a-engenharia-reversa-da-argumentacao/