segunda-feira, 25 de julho de 2016

O FANATISMO E O CAFÉ

Fernando Furlanetto Galuppo, 20/07/2016.


Estava eu outro dia saboreando um deliciosíssimo café de meio de tarde quando reparei que as pessoas que mais me afastaram da esquerda foram curiosamente algumas pessoas da esquerda, e que as pessoas que mais me afastaram da direita foram algumas pessoas da direita.
Reparei também que as pessoas que mais me afastaram da religião foram alguns religiosos e que as pessoas que mais me afastaram do ateísmo foram alguns ateus (já dizia Einstein que “a ciência sem religião é manca, e a religião sem a ciência é cega”). Se aquilo era ser de esquerda, ou de direita, ou religioso, ou ateu, então definitivamente eu não era nada daquilo. Precisaria continuar buscando descobrir o que eu era por meio de outras fontes.
Com o mesmo raciocínio, me ficou evidente que nunca ninguém havia me afastado tanto do feminismo quanto algumas feministas, contrariadas pelos machistas, que me convenceram do feminismo novamente.
Passei tempos duvidando do vegetarianismo/veganismo, já que alguns vegetarianos/vegans, no desespero, chegavam ao ponto de usar argumentos como dizer que "a carne era algo tão errado que sequer tinha gosto, e, por isso, era preciso temperá-la""- Mas a salada também", respondia eu. Porém, mesmo vencidos em argumentos como este, dentre outros, não se rendiam e não havia consenso. Tivessem se rendido ou silenciado em mínimos momentos lógicos de se renderem, teriam me seduzido muito antes. Com o passar do tempo, outros vegetarianos e outras fontes foram me convencendo aos poucos até, enfim, eu reconhecer que, apesar de alguns deles atrapalharem a lógica da argumentação, eles estão mesmo certos (afinal, os hindus em regra são vegans e em regra morrem idosos e saudáveis, esse sim um argumento contundente). Sendo assim, é nobre e legítimo o boicote à indústria da dor. Até a ONU já se manifestou no sentido de que o mundo precisa da dieta sem carne com urgência.
Aquele café de tarde também me fez notar que o que mais me afastou do futebol foram justamente alguns torcedores com suas seitas fanáticas (inclusive os do meu time). Primatas que, em comportamento tribal, praticam todo o tipo de crimes, contra a honra e contra a vida, com quem quer que esteja usando camiseta de clube rival, tão só pela guerra do eu contra o outro.
Além do futebol, quem me vacinou desde cedo contra o zodíaco foram precisamente alguns esotéricos, que passavam a conversar comigo como se estivessem conversando com um atum imediatamente após saberem meu signo (hoje respondo brincando que sou tatu com ascendente em grilo).
Com tantos exemplos de persuasão invertida, a conclusão foi uma só: seriam os fanáticos espiões? Já dizia Nietzsche que "as posições extremas não são seguidas de posições moderadas, e sim de posições contrárias". Para o fanático, o outro é sempre um pária. Se os especialistas fizessem um profundo estudo empírico da eficácia do fanatismo, iriam comprovar que "o fanático mais eficaz" talvez seja aquele situado no ponto de equilíbrio entre os cinquenta e os cem por cento da "escala fanática", isto é, um fanático "raçudo, porém flexível". Em outras palavras, o mais eficaz militante para sua causa provavelmente deva ser "o setenta e cinco por cento apegado", e nada além, já que, depois desse ponto, se torna um fanático em sentido estrito, conseguindo exatamente o contrário do que sua bandeira pretende.
O que fazer então para não nos tornarmos fanáticos inimigos de nossas próprias causas? Ora, um milenar provérbio chinês já dizia: "professor abrir porta, aluno entrar sozinho".
Na arte da argumentação, tão antiga quanto a própria humanidade, aquele que se propõe a convencer alguém de qualquer coisa deveria sempre levar em conta a filosofia deste provérbio.
Argumentar deveria ser como deixar uma porta discretamente entreaberta através da qual deverá sair um delicioso aroma de café feito na hora.
De dentro, com voz serena e sem citar os nomes dos convidados, deverá sair um gentil aviso, sem esperar resposta:
"- O café está pronto, pessoal."




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