terça-feira, 10 de janeiro de 2017

MEU VEGETARIANISMO

Por Fernando Furlanetto Galuppo, Janeiro/2017.

Vegan/vegano (inglês/português), em resumo, é o vegetariano que não come nem mesmo ovos ou laticínios, nem nada que tenha explorado quaisquer seres vivos sencientes. 
Senciência é a capacidade de sofrer ou de sentir prazer. 
Senciência sistema nervoso estão conectados quase que unanimemente pela ciência, isto é, é quase que unânime cientificamente que seres que não tenham sistema nervoso sejam sim, seres vivos, mas somente os seres vivos sencientes têm a capacidade de sentir dor e prazer. Logo, vegetais, fungos, etc, uma vez não tendo sistemas nervosos, não são sencientes, não sentem dor. Estão permitidos para o consumo dentro desta concepção ética, portanto.
vegetariano pode adotar tal postura alimentar por duas razões principais cumuláveis: 1) objetivando melhor qualidade para a própria saúde; e 2) para boicotar a indústria da dor e não patrocinar sofrimentos (tanto o sofrimento do abate, quanto o sofrimento da criação, que argumenta-se ser o pior). 
vegano é, por uma questão de convenção linguística, o vegetariano da segunda opção acima, ou seja, aquele que o faz por boicote à indústria da dor, em estágio muito avançado em disciplina e leque de produtos boicotados.
Eu não sou nem uma coisa nem outra (nem vegetariano, nem vegano), mas resolvi escrever esse texto para refletir sobre minha admiração por ambos, e simultaneamente, refletir sobre minha fraqueza (nossa fraqueza, se o leitor também não for vegetariano/vegan).
A importância do assunto se dá pela ideia da banalidade do mal de Hannah Arendt aplicada à ética alimentar. No caso, pelo fato de que tudo o que consumimos, e, portanto, demandamos, já foi e será, prévia e futuramente, patrocinado por nós.
Apesar de o tema ser milenar (Pitágoras foi vegetariano), somente agora com a ajuda da internet é que a humanidade passou a ter acesso a documentários que incomodam setores econômicos aliados de setores midiáticos que antes não ganhavam espaço nas velhas videolocadoras de bairro. 
Há quem diga que os animais são os últimos dos oprimidos, já que, fora das ficções de Orwell, não conseguem se rebelar, tampouco formar cabos eleitorais.

Resolvi então escrever esse texto na forma de perguntas e respostas ultra didáticas para tentar resumir ao público mais amplo possível as principais dúvidas que eu mesmo tive sobre o assunto, mas principalmente com a intenção de divulgar os materiais que mais me perturbaram positivamente.


1) Quais os melhores documentários sobre ética animal e vegetarianismo disponíveis na internet?
Para mim, “o melhor documentário de todos os tempos”, de tão contundente e bem feito, é o documentário Terráqueos (Earthlings)


https://www.youtube.com/watch?v=O4QnwUVQCN8

Estrelado com a narração do ator Joaquim Phoenix, este é para mim não só o melhor documentário sobre o assunto como o melhor documentário de todos os tempos, o melhor de todos os documentários que já assisti. 


Depois dele, nesta ordem, recomendo também os seguintes documentários: Food Inc (Oscar 2010); O Mundo Segundo a Monsanto (The World According Monsanto); A Carne é Fraca; A Cova (The Cove, Oscar 2010); Pão Nosso de Cada Dia; e Ouro Azul (Blue Gold - World Water Wars). A maioria é encontrada no Youtube, legendados em português. Mas há também um vídeo bem curto do PETA (http://www.peta.org) com cenas fortíssimas, que, aos não cardíacos, vale à pena ser assistido desde já, antes mesmo de continuarmos a leitura da próxima pergunta:


2) Há algum material sobre o assunto sem cenas muito fortes?
Sim, há. Para quem não consegue assistir cenas fortes há um episódio de desenho dos Simpsons, chamado “Lisa, a Vegetariana”, encontrável neste link abaixo, no qual Lisa se torna vegetariana e passa a sofrer bullying de todos ao seu redor: 

http://mais.uol.com.br/view/vtzludptk2f8/os-simpsons--7-temporada-episodio-5-completo-e-dublado-04028C993572C4B94326



Paul McCartney aparece como personagem dentro desse episódio de desenho precisamente por ser, ele próprio, o vegan mais famoso atualmente vivo, além de ser um dos maiores militantes da causa. 




Além do Paul, há muitos outros vegetarianos/vegans famosos. Vejamos alguns:



3) Quais os melhores livros sobre animais e vegetarianismo?
Minha leitura nessa temática específica é enxuta. Recomendo dois. O mais perturbador livro que já li foi "Libertação Animal", do Peter Singer:



Para mim, esse livro é a versão escrita do mencionado documentário Earthlings. Earthlings e Libertação Animal basicamente denunciam tudo o que acontece na indústria da dor, ou seja, tudo o que acontece com cada espécie tanto em experimentações científicas quanto na criação e abate para a alimentação. 
Um segundo livro excelente que li foi a autobiografia de Mohandas Karanchand Gandhi (Mahatma Gandhi), chamada "Gandhi: Autobiografia - Minha vida e minhas experiências com a verdade": 




Nessa obra, ao contar sua própria vida, Gandhi vai recomendando dezenas de livros que o inspiraram e o influenciaram, livros estes sobre os mais variados temas. Acaba também recomendando uma série de livros sobre vegetarianismo, tanto livros hindus e, portanto, religiosos, quanto livros laicos de autores vegetarianos ingleses (lidos no período em que Gandhi viveu em Londres para cursar a Faculdade de Direito).





4) Mas como parar de comer carne se necessitamos de proteína?
A “proteína estar somente no mundo animal" é um mito, um equívoco científico midiático cultural. Precisamos sim, da proteína, mas ela está, também, suficientemente, no mundo vegetal.
O argumento contundente a que tive acesso foi: todo hindu jamais colocou carne, ovos ou laticínios na boca (sendo o mais famoso exemplo o próprio Mahatma Gandhi) e estão todos vivos, bem, e morrendo idosos. Se Gandhi não tivesse sido assassinado, teria vivido bem mais que seus 78 anos. A Índia não tem apenas hindus, e os hindus do mundo não estão apenas na Índia, mas a Índia tem 1.252 bilhão de seres humanos. Seria isso um campo amostral suficiente?
Em suma, precisamos de proteína? Sim, precisamos, isso é verdadeiro, mas a proteína de que nosso corpo necessita, ao contrário do que muitas pessoas acreditam apoiadas em dogmas científicos mais desejados do que comprovados, é encontrada suficientemente também no mundo vegetal. Na soja, na berinjela, no espinafre, na couve, no brócolis, na couve-flor, em fungos, no tomate, na salsinha, no pepino, no pimentão, no repolho, dentre muitos outros:




Até mesmo insetos, riquíssimos em proteína, são amplamente consumidos na culinária asiática. Apesar de muitos veganos também serem contra o consumo de insetos, a ONU já se posicionou no sentido de insetos serem o potencial alimento do futuro :

http://g1.globo.com/natureza/noticia/2013/05/recomendado-pela-onu-consumo-de-insetos-na-dieta-ja-ocorre-no-brasil.html

Fato é que somos vítimas da lavagem cerebral de toda e qualquer culturalização milenar apoiada mais nas tradições e apetites sensoriais que na ciência propriamente dita. Crescemos ouvindo que se não comêssemos carne ficaríamos fracos e morreríamos. Isso está culturalmente enraizado em nós. É difícil flexibilizar tal conceito. Bem difícil.
O necessário é, portanto, a reeducação alimentar da humanidade. Repito: precisamos, sim, de proteína. Se pararmos de comer carne e passarmos a comer somente agrião, iremos, sim, nos subnutrir e adoecer. Será preciso substituir, com inteligência e planejamento, a carne pelas tantas opções riquíssimas que existem no mundo vegetal, e nesse sentido basta aprendermos as maravilhas da culinária vegetariana, por exemplo, com os indianos.
Aquelas notícias que sensacionalizam "uma certa família", que teve "uma certa criança" que se subnutriu e morreu "porque era vegetariana", e que agora "merece ir para a guilhotina", conecta a causa daquela específica morte infantil à dieta vegetariana tão falaciosamente quanto o seu número amostral em si.
Ainda que se comprove que aqueles específicos pais foram negligentes, negligência familiar há aos montes também com inúmeras crianças mortas por subnutrição carnívora, ou mesmo por atropelamentos calcados em negligências dos pais, por exemplo. É o caso de se culpar a negligência do caso concreto, portanto, e não "uma dieta alimentar".
Fosse essa conexão causa mortis e dieta vegetariana real (seja em adultos ou crianças), centenas, milhares e milhões de famílias estariam sendo usados em matérias jornalísticas. No entanto, como dissemos, toda família hindu tem criado suas crianças com a mesma dieta, e onde estão as mortes?
Ora, todo mundo é em algum grau vegetariano ou vegan. Se você se escandalizou com o vídeo do PETA dos abates de cachorros à pauladas acima, ou com a indústria da carne no documentário Earthlings, saiba que você é, em algum grau, também um defensor dos animais, também um boicotador de crueldades em animais, e, portanto, um vegano em potencial. Você não é forte em escala, mas já é sim um "vegano em algum grau". Você nutre empatia e sentimento de justiça por seres sencientes não humanos, isto é, seres que também têm sistemas nervosos, e, portanto, que "sentem dor" tanto quanto a gente (ou mais). O que é preciso agora é ir ampliando o rol de animais que merecerão nossa empatia e compaixão, só isso.
É em algum grau vegano também, por exemplo, aquele indivíduo que boicota casacos de pele, que boicota artigos de couro legítimo, ou que enxerga a dor animal ao receber chicotadas para puxar carroças.
Veja como é simples começar a aumentar a porcentagem vegana que todos temos dentro de nós. Se não consegue imediatamente parar de comer carne, então simplesmente não pare, mas comece a exigir vestimentas e sapatos de materiais que não tenham torturado animais. Comece boicotando roupas de peles e ossos de animais, sapatos, sabonetes de gordura animal, etc.
Quando você assistir a uma raposa sendo depelada viva no documentário Earthlings, perceberá despertar uma repulsa gradual pela compra daquele produto, perceberá que já é, em alguma porcentagem, também você um vegano. Desejará boicotar a "indústria da dor" de algum modo ao menos, se não conseguir de todos.
Comece a fazer isso da forma com que conseguir, na quantidade de coisas que conseguir. Comece depois a eliminar tipos de carnes. Elimine somente os bovinos, mantendo o resto, depois, os suínos, depois as aves, até ficar somente no peixe. E por fim, se conseguir, elimine o peixe também. A etapa final será conseguir abolir também os ovos e laticínios, para assim, se tornar vegano.
Se não consegue eliminar por completo cada um desses animais? Estabeleça a liberdade de comê-los apenas socialmente aos finais de semana, e se torne um vegetariano/vegan nos dias úteis ao menos. Se é impossível a metamorfose completa em apenas um dia, que ela então se realize por esses processos graduais, ainda que longos.


6) Comer carne prejudica o meio ambiente?
Os vegetais estão na base da cadeia alimentar, os animais não. Além de um animal consumir toda a água e vegetal que bebe e come diariamente (a ração do gado é à base de soja), ele consome também toda a água absorvida por toda a vida de todo vegetal que lhe serviu de alimento.
Em outras palavras, todo animal no dia de seu abate corresponde à soma de toda a água que bebeu, mais a soma de todos os vegetais que ingeriu (vegetais estes que, por sua vez, correspondem a outra soma de água mais nutrientes de toda a vida desse vegetal).
Portanto, sim, nossa atual população de 7 bilhões de seres humanos consumindo carne diariamente é algo absolutamente devastador para o planeta tanto em termos vegetais, quanto principalmente em termos de água doce.
Pesquisas calculam que 1 quilo de carne bovina bebe, durante toda sua vida, aproximadamente 100 metros cúbicos de água. Repita-se: apenas UM QUILO, e não o animal inteiro. Imagine então um animal inteiro. Um dado assustador.
Se levamos em consideração que um bovino pesa, em média, 800 quilos, isso nos leva ao terrível número de 80.000 metros cúbicos (ou em números mais mirabolantes, 80.000.000 de litros: oitenta milhões de quilos, ou pior ainda 80 mil toneladas) de água. (Vide tabelas demonstrativas ao final desse texto)
Isso tudo para esse animal virar não só hambúrguer ou churrasco, mas também o couro de sapatos, cintos, jaquetas e demais acessórios desse material; assim como a gordura que vira o sabonete de todos os dias, dentre outros tantos subprodutos mais.
Hoje, num planeta de 7 bilhões de humanos, e num planeta de 3 a 4 vezes mais cabeças de animais vivas sendo criadas para abastecerem esses 7 bilhões de humanos, é preciso calcular as consequências.




7) "- Mas leões comem carne!"
"- Mas Hitler era vegetariano, e veja no que deu!"
Respostas a essas falácias estão no vídeo a seguir:






LEITURAS COMPLEMENTARES:



Leitura complementar sobre carnivorismo e meio ambiente:
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/leaoserva/2014/11/1552073-agronegocio-e-a-morte-da-amazonia.shtml
























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